domingo, 19 de agosto de 2012

sábado, 18 de agosto de 2012

Uma lavra dedicada ao Paulo Medeiros



Não quero a palavra em pedra

Quero-a fluida, líquida, gasefeita

Não a quero em pedra!

Recuso a palavra em tábua!

Rija, sólida, concretada

Quero-a leve, esvoaçante

Véu de noiva, pluma, anágua...

A dureza da pedra

A palavra empedrada

Só quando a palavra é promessa!

Só  quando a palavra é dada!





Carmen Lúcia Guerra 

Itatiaia RJ, março de 2012.




Um quase poema em queda livre


Habitaram-me certezas

Trilhei 10 mil caminhos firmes

Até desfazer-se a estrada

E abrir-se o chão em precipício...


Atada ao que não me pertence,

Presa ao que edifiquei

E ousei denominar meu

Desandei a ruir

A rolar...


Acostumei-me à queda

Ao desaprumo

Aos descaminhos...


E vou de olhos muito abertos

Fechando sempre os ouvidos

Só assim posso cruzar a corda bamba

Espichada sobre mil cacos de vidro.


(Carmen Lúcia Guerra)



Um conto cuja Substância só poderia ser inventada por Guimarães Rosa.
Pegou-me pela fome; mostrou-se capaz de suster por longo período o que em mim mais carece de sustância.
Estão servidos? 


  http://literatura-edir.blogspot.com.br/2009/06/conto-brasileiro-substancia-guimaraes.html

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Noite Feliz!


Marcos Lopes, Carmen Lucia Guerra, Daniel Guerra, Beatriz Guerra e Heloisa Guerra cantando "Vilarejo" em Itatiaia- RJ

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

http://www.wook.pt/authors/detail/id/48359
Nuno Lobo Antunes é irmão daquele outro Lobo lusitano, o António.



"Hesitei muito tempo em contribuir para o que o meu irmão António cruamente designa de 'detritos sólidos', e não queria sacrificar árvores inocentes à prosa desavinda. Cedi, no entanto, que é difícil resistir aos pecados do mundo, e aos desejos da mãe". Assim justifica Nuno Lobo Antunes, especialista em neurologia pediátrica, a edição desta sua primeira obra. "Sinto Muito" foi o título dado, numa tentativa de mostrar o que lhe vai na alma depois da experiência com doentes oncológicos, no Columbia-Presbyterian Medical Center. Não é desculpa que quer pedir. Quer antes dizer como sentiu cada momento vivido com os pacientes e suas famílias. Quer terminar as conversas que não teve por pudor, ou porque a relação profissional não lhe permitiu. Nuno Lobo Antunes faz-nos entrar no quarto do paciente e, junto da cabeceira da cama, leva-nos a colocar a mão na cabeça de quem mais precisa. Mostra-nos como pode ser dura esta luta contra a doença. Mas também como é enorme a nossa força. "As pessoas, quando colocadas perante dramas pessoais, são capazes de se transcender e de se portar como heróis de carne e osso", disse em entrevista à GINGKO. "Qualquer médico com experiências semelhantes, nele se vai reconhecer, tal como quem quer que tenha estado do outro lado do espelho de Alice. Os leitores não terão dificuldade em confiar nesta nova voz-do-mestre", diz António Damásio no prefácio. E, de facto, assim parece. O livro, lançado pela Verso de Kapa, transformou-se num sucesso de vendas. Chegou ao Top da Fnac e da Bertrand e vai já na quinta edição. "É preciso afirmar aquilo em que se acredita (...) É preciso dizer que a paixão, mais que a razão, redime e nos torna santos. E, sem pudor dos afectos, confessar que sinto muito" 
(in Sinto Muito, Nuno Lobo Antunes)


Comentário de uma leitora:


"Acabei agora “Sinto Muito” de Nuno Lobo Antunes…

Falando da dor e do sofrimento, mas um hino à vida.
Não houve uma página em que não chorasse, outras houve que ri, pelo meio…
Livro duro, não tenho estofo nem bagagem para me meter nestas leituras...livro lindo, potentíssimo.... god...
Mais humana estou, mas também sem sono fiquei…
”A vida é tempo entre parêntesis: alma a nu, sentimento despido de pudor, o amor como razão de ser e de viver”.
 


http://www.youtube.com/watch?v=6wSoVFO_tWw&feature=player_embedded#!
Não é João, é Francisco Bosco. Escreve que é uma beleza! Filho de peixe...
http://www.joaobosco.com.br/novo/francisco.asp

O Indireto Afetivo na Linguagem do Carioca


No Rio de Janeiro contemporâneo há uma figura lingüístico-afetiva que pontua as relações sociais entre cariocas, ou entre um carioca e um estrangeiro. Trata-se – e todo carioca ou qualquer pessoa que já esteve no Rio o reconhecerá – do famigerado
diálogo:

— Rapaz, há quanto tempo!
— Pois é, que bom te ver!
— Poxa, a gente tinha que se falar mais!
— É mesmo, vou te ligar.
— Mas liga mesmo, pra gente se ver, botar o papo em dia.
— Não, pode deixar, vou ligar com certeza.
— Beleza, então. Adorei te ver!
— Eu também, te ligo então. Um grande abraço!

Isso ou variações.

Pois para muitos cariocas, que já estão mais do que familiarizados com o diálogo, e talvez sobretudo para os não-cariocas, que constataram perplexos o encaminhamento futuro dessas promessas, essa figura lingüística acaba por se configurar como uma situação de constrangimento. Afinal, todos sabemos que não haverá telefonema algum. Todos, literalmente, a começar pelos próprios personagens da conversa. E a fórmula do constrangimento, já se disse, é precisamente esta: todos sabem que todos sabem e entretanto ninguém o pode admitir. Curiosas sutilezas sociais. O que impede que se desencubra o não-dito do diálogo é que esse não-dito é sentido como uma mentira: não haverá telefonema, um não ligará para o outro, e vice-versa. Assim, o não-dito é mantido e desenvolvido, cria-se uma conversa sustentando a sua tensão. Está configurada a situação constrangedora.

Mas o que faz com que a situação seja por muitos experimentada como constrangedora é justamente o entendimento desse não-dito, dessa promessa que sabemos sem fundos ("te ligo, com certeza"), como sendo uma mentira. Fulano disse que ia ligar, mas não ligou: mentira, portanto. Pior: fulano assegurou que ia ligar, enfatizou, sublinhou a promessa com todas as inflexões e entonações da convicção. Mentira ainda mais grave, gravíssima.

Entretanto, tudo muda se pensarmos o recalcado do diálogo, o não-dito, não como uma mentira, mas como um modo indireto da verdade. Assim, o horizonte em que a promessa passa a ser verdadeira não é mais a sua efetivação posterior, mas o que, dentro dela, vibra afetivamente: "te ligo" passa a significar "gosto de você", "vou ligar com certeza" traduz-se por "gosto muito de você", e assim por diante, a intensidade afetiva aumentando à proporção das entonações e expressões de segurança. Fernando Pessoa dizia que "a linguagem pode mentir, mas a voz não". Ora, nesse fragmento de carioquês a verdade está na voz, no afeto que nela pulsa e se manifesta explicitamente. Mas, cabe então a pergunta: por que engajar esse afeto em uma promessa sem fundos, que se sabe não será cumprida? Por que comprometer sua verdade associando-o a uma efetivação que não ocorrerá?

A origem dessa curiosa figura sócio-lingüístico-afetiva é uma outra figura: uma sutil transformação da amizade que costuma se dar numa das curvas impostas pelo tempo a determinadas relações. Essa transformação ocorre quando uma amizade intensa passa de um estado de intimidade diariamente atualizada – conversas freqüentes, presença física constante, confissões, vidas em permanente comunicação – para um estado de amizade em que a distância se interpõe e dispersa as trajetórias dos amigos, porém algo da intimidade da outra configuração resiste a essa nova forma e se mantém intenso, incólume à distância. Esse "algo da intimidade" se transforma em um afeto constante que, adormecido e escondido pela distância, emerge efusivamente na presença do amigo. Afeto a distância. Quase-intimidade que se evidencia, para deleite dos amigos, a cada vez que o acaso propicia um encontro. Mas, em geral, os movimentos divergentes das trajetórias de vida são irreversíveis, na medida em que atingem o processo de subjetivação de cada um dos amigos: estes já não são mais os mesmos, pensam e sentem de forma diferente, são outros, não podem ter a cumplicidade que tinham antes, não da mesma forma. O que resiste, o afeto, é resultado de uma intimidade de tal modo condensada que, por excesso, atingiu como que uma existência própria, interpessoal, portanto imune às mudanças de vida dos amigos.

Perde-se a intimidade, já não se sabe tão bem da vida do outro, mas fica, incorruptível, o afeto, que vem à tona nos encontros fortuitos. Pois, justamente, é essa consciência (que pode ser apenas intuída, porém claramente) da perda irreversível da intimidade, da impossível recuperação da amizade, que virá a produzir o diálogo de que estamos tratando. O afeto é verdadeiro, é uma positividade, mas há em sua formação uma perda, uma impossibilidade: a da intimidade perdida. Isto é, telefonar seria um erro, seria apostar na improvável recuperação do estado antigo da amizade. Doravante a amizade é isso: o afeto efusivo, a alegria dos encontros fortuitos – que entretanto tenderia a perder a efusão se se tentasse um movimento restaurador. O recalcado do diálogo, o não-dito, se forma nesse ponto: é que seria duro demais trazer à tona o núcleo de perda e de impossibilidade que se encontra na formação de um afeto tão positivo, tão efusivamente manifestado. Opta-se por escondê-lo, e para tanto faz-se necessário mascará-lo com a promessa da restauração: "Vou te ligar." Quanto maior a consciência ou a intuição — da impossibilidade, e de quanta perda ela encerra, maior a necessidade de mascaramento: "Vou te ligar, com certeza."

Assim, curiosamente, quanto maior a mentira, maior a verdade. A verdade do afeto não se subordina à efetivação da promessa, mas se manifesta, de forma indireta, através do prometido: "Vou te ligar, com certeza" significa apenas "Gosto muito de você". O não cumprimento da promessa significa a consciência (mesmo que intuitiva) da impossibilidade de restauração da amizade, e o recalcado do diálogo é o mascaramento protetor de um afeto delicado. Pois a verdade nua e crua, desprotegida, poderia ser muito... constrangedora: "Rapaz, há quanto tempo! Veja, gosto de você, fomos muito íntimos, mas hoje somos bem diferentes, não acredito que possamos retomar a antiga cumplicidade, por isso vamos apenas gozar desse momento de alegria fortuita, sem fazer promessas que não poderemos cumprir." Logo o constrangimento também surge de um excesso de dizer, e não apenas de um não-dito gritante. Na verdade, nosso famigerado diálogo carioca só se torna constrangedor se sua verdade nuclear – o afeto incorruptível – não for forte o suficiente para sustentar, à base de cumplicidade, a tensão do mascaramento. Quando o mascaramento é bem-feito, o diálogo transcorre sob intensa e efêmera efusão afetiva – e somente na despedida passa por nós a brisa de uma melancolia. 

De: BOSCO, Francisco. Banalogias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.