domingo, 2 de setembro de 2012

Miguel Torga

"Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal 
motivo
De insatisfação -,
Diante de qualquer adoração,
Ajuizo.
Não me sei conformar
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso."

*


"Só nos é concedida 
Esta vida 
Que temos; 
E é nela que é preciso 
Procurar 
O velho paraíso 
Que perdemos... 

Mas corto as ondas sem desanimar. 
Em qualquer aventura, 
O que importa é partir, não é chegar."


*


“Joga a bola, menino! 
Dá pontapés certeiros 
Na empanturrada imagem 
Deste mundo. 
Traça no firmamento 
Órbitas arbitrárias 
Onde os astros fingidos 
Percam a majestade. 
Brinca, na eterna idade 
Que eu já tive 
E perdi, 
Quando, por imprudência, 
Saltei o risco branco da inocência 
E cresci.”


Maria Rosa Colaço



Maria Rosa Colaço foi uma grande educadora portuguesa. O texto que está no link abaixo, iluminou meu último ano de aluna do curso normal; fazia parte de um livro de Didática que acabou se perdendo...
Muito tempo depois, já com o advento da internet, não apenas pude resgatá-lo como também conhecer a fundo a história de Maria Rosa que viveu uma vida inteira de amor e dedicação ao magistério.
Amo-te, Maria, Maria...


O blog dedicado a Ela:
http://mariarosacolaco.blogspot.com.br/2004_11_01_archive.html

Mulheres...






(...) "Sem nosso trabalho, esses mares não seriam navegados e 

aquelas terras férteis seriam um deserto. Geramos e alimentamos e 

lavamos e instruímos, talvez até os seis ou sete anos de idade, o 

bilhão seiscentos e vinte e três milhões de seres humanos que, 

segundo as estatísticas, existem atualmente, e isso, mesmo 

admitindo que algumas de nós tenhamos tido ajuda, leva tempo.”
Virginia Woolf ( 1915-1941)– Um Teto Todo Seu, 2ª.ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2004.

Jaime Salazar Sampaio que acabo de conhecer.

Fenando Pessoa



A FADA DAS CRIANÇAS

Do seu longínquo reino cor-de-rosa,
Voando pela noite silenciosa,
A fada das crianças vem, luzindo.
Papoulas a coroam, e, cobrindo
Seu corpo todo, a tornam misteriosa.

À criança que dorme chega leve,
E, pondo-lhe na fronte a mão de neve,
Os seus cabelos de ouro acaricia –
E sonhos lindos, como ninguém teve,
A sentir a criança principia.

E todos os brinquedos se transformam
Em coisas vivas, e um cortejo formam:
Cavalos e soldados e bonecas,
Ursos e pretos, que vêm, vão e tornam,
E palhaços que tocam em rabecas…

E há figuras pequenas e engraçadas
Que brincam e dão saltos e passadas…
Mas vem o dia, e, leve e graciosa,
Pé ante pé, volta a melhor das fadas
Ao seu longínquo reino cor-de-rosa.

Camus, Sisifo e Miguel Torga.





Sísifo

Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.

E os passos que deres
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances
Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
Sempre a sonhar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde com lucidez, te reconheças.


(Miguel Torga)




Nascido na mitologia grega, há várias versões sobre Sísifo, que foi o fundador de Éfira, que mais tarde veio a chamar-se Corinto.

Ele era considerado o mais astucioso dos homens, mas incorreu na cólera de Zeus.
Este lhe impôs no inferno o castigo de ter de rolar até o alto de uma colina uma grande pedra para baixo; essa tarefa recomeçava incessantemente, numa punição eterna.

Albert Camus escreve uma obra célebre sobre o tema, intitulada “O Mito de Sísifo”, que marcou várias gerações (pessoalmente, li esse livro várias vezes), quando o estudo da mitologia e da filosofia era respeitado e valorizado em nossas universidades.

Para muitos, seria ele a metáfora do herói estóico, Sofre o maior dos castigos: ter de rolar até o alto de uma colina uma grande pedra para baixo e, além disso, precisa recomeçar essa tarefa sem parar.

Essa obrigação, dever ou danação, lembra a noção do absurdo.

Para muitos existencialistas, o absurdo é a evidência que desperta.

Quer dizer, mesmo que Deus não exista, que o homem seja finito, que a justiça e o bem raramente triunfem, a missão dos viventes não é inútil.

Significa que o mérito de uma obra é tê-la feito.

Simplesmente isso: tê-la realizado.

Que não se espere gratidão, que não se conte com a valorização alheia por posturas dignas num mundo corrompido.

E preciso ter uma ética pessoal, calcada não na retórica, mas na vida.

Isto é, é preciso ser autêntico.

Por isso Camus, encerra sua bela obra afirmando: “É preciso imaginar Sísifo feliz”.

Então, a vida não é justa, nem injusta. Simplesmente é.

Não caberia dizer: “ele é tão bom, não mereceria sofrer”.

Porque não adianta.

Com estoicismo, é preciso estar preparado para tudo. Essa é a lição que fica.

Num mundo pós-utópico, absolutamente fragmentado, em que a ânsia da totalidade nunca é concretizada, no qual reina o desencanto, e também a resignação e a passividade, a capacidade de resistirmos com ética e honra, se torna, talvez, nossa missão maior neste planeta.

Formou-se uma comunidade de consumidores, não de cidadãos.

Em um mundo árido, carente de ideais maiores, o mito de Sísifo torna-se cada vez mais atual.



Texto de 
Emanuel Medeiros Vieira









        Sisifo, Camus e Torga emprestam beleza e suavidade à minha absurda pedra.