"Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal
motivo
De insatisfação -,
Diante de qualquer adoração,
Ajuizo.
Não me sei conformar
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso."
*
"Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar."
*
“Joga a bola, menino!
Dá pontapés certeiros
Na empanturrada imagem
Deste mundo.
Traça no firmamento
Órbitas arbitrárias
Onde os astros fingidos
Percam a majestade.
Brinca, na eterna idade
Que eu já tive
E perdi,
Quando, por imprudência,
Saltei o risco branco da inocência
E cresci.”
domingo, 2 de setembro de 2012
Maria Rosa Colaço
Maria Rosa Colaço foi uma grande educadora portuguesa. O texto que está no link abaixo, iluminou meu último ano de aluna do curso normal; fazia parte de um livro de Didática que acabou se perdendo...
Muito tempo depois, já com o advento da internet, não apenas pude resgatá-lo como também conhecer a fundo a história de Maria Rosa que viveu uma vida inteira de amor e dedicação ao magistério.
Amo-te, Maria, Maria...
O blog dedicado a Ela:
http://mariarosacolaco.blogspot.com.br/2004_11_01_archive.html
Mulheres...
(...) "Sem nosso trabalho, esses mares não seriam navegados e
aquelas terras férteis seriam um deserto. Geramos e alimentamos e
lavamos e instruímos, talvez até os seis ou sete anos de idade, o
bilhão seiscentos e vinte e três milhões de seres humanos que,
segundo as estatísticas, existem atualmente, e isso, mesmo
admitindo que algumas de nós tenhamos tido ajuda, leva tempo.”
aquelas terras férteis seriam um deserto. Geramos e alimentamos e
lavamos e instruímos, talvez até os seis ou sete anos de idade, o
bilhão seiscentos e vinte e três milhões de seres humanos que,
segundo as estatísticas, existem atualmente, e isso, mesmo
admitindo que algumas de nós tenhamos tido ajuda, leva tempo.”
Virginia Woolf ( 1915-1941)– Um Teto Todo Seu, 2ª.ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2004.
Fenando Pessoa
A FADA DAS CRIANÇAS
Do seu longínquo reino cor-de-rosa,
Voando pela noite silenciosa,
A fada das crianças vem, luzindo.
Papoulas a coroam, e, cobrindo
Seu corpo todo, a tornam misteriosa.
À criança que dorme chega leve,
E, pondo-lhe na fronte a mão de neve,
Os seus cabelos de ouro acaricia –
E sonhos lindos, como ninguém teve,
A sentir a criança principia.
E todos os brinquedos se transformam
Em coisas vivas, e um cortejo formam:
Cavalos e soldados e bonecas,
Ursos e pretos, que vêm, vão e tornam,
E palhaços que tocam em rabecas…
E há figuras pequenas e engraçadas
Que brincam e dão saltos e passadas…
Mas vem o dia, e, leve e graciosa,
Pé ante pé, volta a melhor das fadas
Ao seu longínquo reino cor-de-rosa.
Camus, Sisifo e Miguel Torga.
Sísifo
Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
Sempre a sonhar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde com lucidez, te reconheças.
(Miguel Torga)
Nascido na mitologia grega, há várias versões sobre Sísifo, que foi o fundador de Éfira, que mais tarde veio a chamar-se Corinto.
Ele era considerado o mais astucioso dos homens, mas incorreu na cólera de Zeus.
Este lhe impôs no inferno o castigo de ter de rolar até o alto de uma colina uma grande pedra para baixo; essa tarefa recomeçava incessantemente, numa punição eterna.
Albert Camus escreve uma obra célebre sobre o tema, intitulada “O Mito de Sísifo”, que marcou várias gerações (pessoalmente, li esse livro várias vezes), quando o estudo da mitologia e da filosofia era respeitado e valorizado em nossas universidades.
Para muitos, seria ele a metáfora do herói estóico, Sofre o maior dos castigos: ter de rolar até o alto de uma colina uma grande pedra para baixo e, além disso, precisa recomeçar essa tarefa sem parar.
Essa obrigação, dever ou danação, lembra a noção do absurdo.
Para muitos existencialistas, o absurdo é a evidência que desperta.
Quer dizer, mesmo que Deus não exista, que o homem seja finito, que a justiça e o bem raramente triunfem, a missão dos viventes não é inútil.
Significa que o mérito de uma obra é tê-la feito.
Simplesmente isso: tê-la realizado.
Que não se espere gratidão, que não se conte com a valorização alheia por posturas dignas num mundo corrompido.
E preciso ter uma ética pessoal, calcada não na retórica, mas na vida.
Isto é, é preciso ser autêntico.
Por isso Camus, encerra sua bela obra afirmando: “É preciso imaginar Sísifo feliz”.
Então, a vida não é justa, nem injusta. Simplesmente é.
Não caberia dizer: “ele é tão bom, não mereceria sofrer”.
Porque não adianta.
Com estoicismo, é preciso estar preparado para tudo. Essa é a lição que fica.
Num mundo pós-utópico, absolutamente fragmentado, em que a ânsia da totalidade nunca é concretizada, no qual reina o desencanto, e também a resignação e a passividade, a capacidade de resistirmos com ética e honra, se torna, talvez, nossa missão maior neste planeta.
Formou-se uma comunidade de consumidores, não de cidadãos.
Em um mundo árido, carente de ideais maiores, o mito de Sísifo torna-se cada vez mais atual.
Texto de Emanuel Medeiros Vieira
Sisifo, Camus e Torga emprestam beleza e suavidade à minha absurda pedra.sábado, 1 de setembro de 2012
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