domingo, 2 de setembro de 2012

Camus, Sisifo e Miguel Torga.





Sísifo

Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.

E os passos que deres
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances
Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
Sempre a sonhar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde com lucidez, te reconheças.


(Miguel Torga)




Nascido na mitologia grega, há várias versões sobre Sísifo, que foi o fundador de Éfira, que mais tarde veio a chamar-se Corinto.

Ele era considerado o mais astucioso dos homens, mas incorreu na cólera de Zeus.
Este lhe impôs no inferno o castigo de ter de rolar até o alto de uma colina uma grande pedra para baixo; essa tarefa recomeçava incessantemente, numa punição eterna.

Albert Camus escreve uma obra célebre sobre o tema, intitulada “O Mito de Sísifo”, que marcou várias gerações (pessoalmente, li esse livro várias vezes), quando o estudo da mitologia e da filosofia era respeitado e valorizado em nossas universidades.

Para muitos, seria ele a metáfora do herói estóico, Sofre o maior dos castigos: ter de rolar até o alto de uma colina uma grande pedra para baixo e, além disso, precisa recomeçar essa tarefa sem parar.

Essa obrigação, dever ou danação, lembra a noção do absurdo.

Para muitos existencialistas, o absurdo é a evidência que desperta.

Quer dizer, mesmo que Deus não exista, que o homem seja finito, que a justiça e o bem raramente triunfem, a missão dos viventes não é inútil.

Significa que o mérito de uma obra é tê-la feito.

Simplesmente isso: tê-la realizado.

Que não se espere gratidão, que não se conte com a valorização alheia por posturas dignas num mundo corrompido.

E preciso ter uma ética pessoal, calcada não na retórica, mas na vida.

Isto é, é preciso ser autêntico.

Por isso Camus, encerra sua bela obra afirmando: “É preciso imaginar Sísifo feliz”.

Então, a vida não é justa, nem injusta. Simplesmente é.

Não caberia dizer: “ele é tão bom, não mereceria sofrer”.

Porque não adianta.

Com estoicismo, é preciso estar preparado para tudo. Essa é a lição que fica.

Num mundo pós-utópico, absolutamente fragmentado, em que a ânsia da totalidade nunca é concretizada, no qual reina o desencanto, e também a resignação e a passividade, a capacidade de resistirmos com ética e honra, se torna, talvez, nossa missão maior neste planeta.

Formou-se uma comunidade de consumidores, não de cidadãos.

Em um mundo árido, carente de ideais maiores, o mito de Sísifo torna-se cada vez mais atual.



Texto de 
Emanuel Medeiros Vieira









        Sisifo, Camus e Torga emprestam beleza e suavidade à minha absurda pedra.

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