quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Sophia de Mello Breyner Andresen



Esta gente






Esta gente cujo rosto 

Às vezes luminoso 
E outras vezes tosco 



Ora me lembra escravos 

Ora me lembra reis 


Faz renascer meu gosto 

De luta e de combate 
Contra o abutre e a cobra 
O porco e o milhafre 



Pois a gente que tem 

O rosto desenhado 
Por paciência e fome 
É a gente em quem 
Um país ocupado 
Escreve o seu nome 



E em frente desta gente 

Ignorada e pisada 
Como a pedra do chão 
E mais do que a pedra 
Humilhada e calcada 



Meu canto se renova 

E recomeço a busca 
De um país liberto 
De uma vida limpa 
E de um tempo justo 





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