domingo, 9 de setembro de 2012

SOPHIA DE MELLO BREYNER

Um poema que elegi e considero meu; na vida, e na morte também. 

Deixo-o aqui, como homenagem ao grande Luiz Bacellar, poeta amazonense que partiu hoje; em setembro, como meu pai.


Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos 


Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor 



Prometido nas formas que perdemos.
Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua. 


Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei. 


Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi, 


Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei. 

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