quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Nossa língua portuguesa.

Padre Antônio Vieira, seu mano Bernardo
e o "Boca do Inferno"
Gregório de Mattos e Guerra

Soneto
que Bernardo Vieira mandou  para seu irmão, Padre Antônio Vieira:

Se queres ver do mundo um novo mapa,
oitenta anos atende desta cepa
por onde ramos a cobiça trepa,
e emaranhada faz do tronco lapa.

Morde com dentes por não ter mais papa;
com língua fere, com as mãos decepa;
soldado e povo livra da carepa,
que na tarde e manhã raivoso rapa;

olhos de água, as faces de tulipa;
cada pé de joanete uma garlopa;
com um só corpo de chalupa.

O bofe muito, e muito pouco a tripa,
é a minha musa; porque nela topa
em apa, epa, ipa, opa, upa.

Resposta

do Padre Antônio Vieira, pelos mesmos consoantes:

Vê, Bernardo, da eternidade o mapa
deixa do velho Adão a geral cepa,
pelo lenho da cruz ao Empírio trepa,
começando em Belém da pobre lapa.

Mais que rei pode ser, e mais que papa,
quem de seu coração vícios decepa;
que a grenha de Sansão toda é carepa,
e a guadanha da morte tudo rapa.

A dor da vida se é na cor tulipa,
de seus anos também se faz garlopa,
que os corta, como o mar corta a chalupa.

Não há mister que o ferro corte a tripa,
se na parte vital o fado topa,
em apa, epa, ipa, opa, upa.

Soneto Por consoantes que me deram forçados
Gregório de Mattos e Guerra, o "Boca do Inferno", entra na conversa:

Neste mundo é mais rico o que mais rapa;
quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
com sua língua, ao nobre o vil decepa;
o velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa;
quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
quem menos falar pode, mais increpa;
quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por tulipa;
bengala hoje na mão, ontem garlopa;
mais isento se mostra o que mais chupa;

para a tropa do trapo vão a tripa,
e mais não digo; porque a Musa topa
em apa, em epa, em ipa, em opa, em upa.

Padre Antônio Vieira
 (1608-1697), jesuíta, natural de Lisboa, foi o maior orador sacro da língua portuguesa. Passou a maior parte de sua vida no Brasil, deixando 200 sermões e mais de 500 cartas.
Gregório de Mattos e Guerra (1633-1696) nasceu na Bahia, estudou humanidades e direito em Portugal ; advogou em Lisboa; aos 47 anos voltou ao Brasil. É considerado o primeiro escritor de humor e sátiras brasileiro. Aqui, ele mete o bedelho nos sonetos de Bernardo e Padre Antônio Vieira, mostrando sua genialidade.

Textos extraídos do livro "Humor, Humorismo e Paródias", antologia de poesias, versos e poemas famosos coletados por Idel Becker, Editora Brasiliense - Rio de Janeiro,1961, págs. 38, 39 e 41.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Uma Crônica de ANTÓNIO LOBO ANTUNES dedicada a ISABEL JONET (Presidente do Banco Alimentar Contra a Fome)

"Os Pobrezinhos

Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:

- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.

O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:

- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.

Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto

(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)

de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico

- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho

o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:

- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu

Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros

- O que é que o menino quer, esta gente é assim

e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.

Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse

- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar

e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.

Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.

Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis"

Feriadão espichado na companhia dos meus 4 amores lá em Vassouras... 
Éramos 5, lá, há pouco, logo ali... 
Agora tão longe... 
( distâncias doídas meço com régua amazônica).
De volta à casa, que ainda guarda nossas poucas coisas, 
Viro o reloginho de areia... 
Nós e o tempo, de grão em grão,faremos pacientemente o trabalho... 
Até que o dia novo conceda-me a graça de estarmos em nossos "Mil Corações", no meu teko porã há tanto tempo sonhado...
Lá é que fincaremos nossas raízes sobreviventes; 
com elas fundaremos novo tempo, novo reino;
novo lar para os novos seres que haveremos de engendrar.
Graça, é tão somente o que reivindico, oh vida minha!


domingo, 4 de novembro de 2012

Oscar Wilde - Fragmento do poema "Panthea".


(…) Is the light vanished from our golden sun,
Or is this daedal-fashioned earth less fair,
That we are nature’s heritors, and one
With every pulse of life that beats the air?
Rather new suns across the sky shall pass,
New splendour come unto the flower, new glory to the 
grass. (…)

We shall be notes in that great Symphony
Whose cadence circles through the rhythmic spheres,
And all the live World’s throbbing heart shall be
One with our heart, the stealthy creeping years
Have lost their terrors now, we shall not die,
The Universe itself shall be our Immortality! (…)”

LOVE IS ALL


"My Way", interpretada pelo Sinatra, é uma das canções que mais lembra meu saudoso pai, mas acho que só porque eu tinha esquecido de "LOVE IS ALL" que agora me fez chorar de saudade.
Malcom Roberts, venceu um festival com ela e havia uma versão em português que vou pesquisar e se achar compartilho depois.





Love Is All

Yesterday, I knew the games to play
I thought I knew the way life was meant to be
But now there's you
My foolish games are through
Now at last I have found
Just what makes this old world turn around

Love is all I have to give
Love is all as long as I shall live
Take it all
And I'll always be there when you call my name
I know now that love is all.

Every night I long to hold you tight
Until the morning light
Shines into your eyes
Love me now
We'll get along somehow
Won't you please take my hand
And together forever we'll stand
Love is all I have to give





A versão em português cantada pelo Aguinaldo Rayol, um cantor que o C. Guerra adorava! 



Às irmãs que se vão.





"Ela está sentada à janela. Sei que nunca
 Mais se levantará para abri-la
 Porque está sentada do lado de fora
 E nenhum de nós pode trazê-la para dentro".





São elas
Meninas, moças e mulheres
Que me dizem adeus dessa janela
São flores extraviadas...
Dançarinas sem corpos, sem vestes
Elos rompidos da delicada corrente
Para sempre...
Para sempre...

São artérias, pontes e caminhos 
Sob pesado concreto
Deslembradas de que foram
Sangue, e água, e tantas promessas
Para sempre...
Para sempre...
  
E todas me acenam seus lencinhos brancos
E todas me dizem adeus dessa janela
Sobre a qual incrédula me debruço 
Para dizer o que em vida nunca pude
Às irmãs que de longe me acenam
Seus lenços feitos de saudade e espanto
Para sempre...
Para sempre...


Calu
(Itatiaia, 04 de novembro de 2012) 











Ainda bem...





" Those who find beautiful meanings in beautiful things are the cultivated. For these there is hope. 
They are the elect to whom beautiful things mean only beauty."

                                       (Oscar Wilde, the picture of Dorian Gray)

Viva o Povo Brasileiro!

“Quem não tem a consciência certa das raízes profundas do seu ser, isto é, do povo a que pertence, de que coisa pode ter certeza ou noção?”







Tenho consciência de que muitas certezas são nefastas, mas ao mesmo tempo, de que ter algumas poucas e boas após tanta peleja, é absolutamente indispensável! 

Por isto, estou fincando em terra cada vez mais firme, a partir da leitura deste livro genial, as raízes profundas do meu ser - "sertezas" - e do povo ao qual pertenço. 
    




terça-feira, 30 de outubro de 2012

Manuel António Pina.

                                         A MEU FAVOR TENHO O TEU OLHAR

                                                            


   A meu favor tenho o teu olhar

testemunhando por mim

perante juízes terríveis:



a morte, os amigos, os inimigos.







E aqueles que me assaltam

à noite na solidão do quarto

refugiam-se em fundos sítios dentro de mim

quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.



Protege-me com ele, com o teu olhar,

dos demônios da noite e das aflições do dia,

fala em voz alta, não deixes que adormeça,

afasta de mim o pecado da infelicidade.





domingo, 28 de outubro de 2012

Arthur Schopenhauer.

          Com o auxílio luxuoso da filosofia vou tecendo e esgarçando fio a fio o que sou e penso ser...
                 Compartilho com quem deseja o exercício, este belo texto de Schopenhauer.                                          


                                    Quem não Ama a Solidão, não Ama a Liberdade

Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças (high life), pois, quando tentamos transformar a nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas. 
Assim como o nosso corpo está envolto em vestes, o nosso espírito está revestido de mentiras. Os nossos dizeres, as nossas ações, todo o nosso ser é mentiroso, e só por meio desse invólucro pode-se, por vezes, adivinhar a nossa verdadeira mentalidade, assim como pelas vestes se adivinha a figura do corpo.

Antes de mais nada, toda a sociedade exige necessariamente uma acomodação mútua e uma temperatura; por conseguinte, quanto mais numerosa, tanto mais enfadonha será. Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre.
A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.

Ademais, quanto mais elevada for a posição de uma pessoa na escala hierárquica da natureza, tanto mais solitária será, essencial e inevitavelmente. Assim, é um benefício para ela se à solidão física corresponder a intelectual. Caso contrário, a vizinhança frequente de seres heterogêneos causa um efeito incômodo e até mesmo adverso sobre ela, ao roubar-lhe seu «eu» sem nada lhe oferecer em troca. Além disso, enquanto a natureza estabeleceu entre os homens a mais ampla diversidade nos domínios moral e intelectual, a sociedade, não tomando conhecimento disso, iguala todos os seres ou, antes, coloca no lugar da diversidade as diferenças e degraus artificiais de classe e posição, com frequência diametralmente opostos à escala hierárquica da natureza.
Nesse arranjo, aqueles que a natureza situou em baixo encontram-se em ótima situação; os poucos, entretanto, que ela colocou em cima, saem em desvantagem. Como consequência, estes costumam esquivar-se da sociedade, na qual, ao tornar-se numerosa, a vulgaridade domina.

sábado, 27 de outubro de 2012

Hermínio Belo de Carvalho e Capiba.

"AMIGO É CASA."

A belíssima letra do Hermínio B. de Carvalho para a Melodia do Capiba, fez desta canção uma verdadeira ode à Amizade; e ainda mais emocionante com a interpretação de Simone e ZD.
Uma riqueza!


 Amigo é feito casa que se faz aos poucos 
e com paciência pra durar pra sempre 
Mas é preciso ter muito tijolo e terra 
preparar reboco, construir tramelas 
Usar a sapiência de um João-de-barro 
que constrói com arte a sua residência 
há que o alicerce seja muito resistente 
que às chuvas e aos ventos possa então a proteger 
E há que fincar muito jequitibá 
e vigas de jatobá 
e adubar o jardim e plantar muita flor toiceiras de resedás 
não falte um caramanchão pros tempos idos lembrar 
que os cabelos brancos vão surgindo 
Que nem mato na roceira 
que mal dá pra capinar 
e há que ver os pés de manacá 
cheinhos de sabiás 
sabendo que os rouxinóis vão trazer arrebóis 
choro de imaginar! 
pra festa da cumieira não faltem os violões! 
muito milho ardendo na fogueira 
e quentão farto em gengibre 
aquecendo os corações 
A casa é amizade construída aos poucos 
e que a gente quer com beira e tribeira 
Com gelosia feita de matéria rara 
e altas platibandas, com portão bem largo 
que é pra se entrar sorrindo 
nas horas incertas 
sem fazer alarde, sem causar transtorno 
Amigo que é amigo quando quer estar presente 
faz-se quase transparente sem deixar-se perceber 
Amigo é pra ficar, se chegar, se achegar, 
se abraçar, se beijar, se louvar, bendizer 
Amigo a gente acolhe, recolhe e agasalha 
e oferece lugar pra dormir e comer 
Amigo que é amigo não puxa tapete 
oferece pra gente o melhor que tem e o que nem tem 
quando não tem, finge que tem, 
faz o que pode e o seu coração reparte que nem pão.




Clarice Lispector.

A Lucidez Perigosa

Estou sentindo uma clareza tão grande 
que me anula como pessoa atual e comum: 
é uma lucidez vazia, como explicar? 
assim como um cálculo matemático perfeito 
do qual, no entanto, não se precise. 

Estou por assim dizer 
vendo claramente o vazio. 
E nem entendo aquilo que entendo: 
pois estou infinitamente maior que eu mesma, 
e não me alcanço. 
Além do que: 
que faço dessa lucidez? 
Sei também que esta minha lucidez 
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes. 

Pois sei que 
- em termos de nossa diária 
e permanente acomodação 
resignada à irrealidade
- essa clareza de realidade 
é um risco. 

Apagai, pois, minha flama, Deus, 
porque ela não me serve 
para viver os dias. 
Ajudai-me a de novo consistir 
dos modos possíveis. 
Eu consisto, 
eu consisto, 
amém.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O triste fim do "Teko porã" Guarani.


O belíssimo artigo de Eliane Brum para a revista Época, que me fez estremecer de dor e emoção.
Um trecho do artigo:

É importante lembrar que carta é palavra. A declaração de morte coletiva surge como palavra dita. Por isso precisamos compreender, pelo menos um pouco, o que é a palavra para os Guaranis Caiovás. Em um texto muito bonito, intitulado Ñe'ẽ – a palavra alma, a antropóloga Graciela Chamorro, da Universidade Federal da Grande Dourados, nos dá algumas pistas: 
“A palavra é a unidade mais densa que explica como se trama a vida para os povos chamados guarani e como eles imaginam o transcendente. As experiências da vida são experiências de palavra. Deus é palavra. (...) O nascimento, como o momento em que a palavra se senta ou provê para si um lugar no corpo da criança. A palavra circula pelo esqueleto humano. Ela é justamente o que nos mantém em pé, que nos humaniza. (...) Na cerimônia de nominação, o xamã revelará o nome da criança, marcando com isso a recepção oficial da nova palavra na comunidade. (...) As crises da vida – doenças, tristezas, inimizades etc. – são explicadas como um afastamento da pessoa de sua palavra divinizadora. Por isso, os rezadores e as rezadoras se esforçam para ‘trazer de volta’, ‘voltar a sentar’ a palavra na pessoa, devolvendo-lhe a saúde.(...) Quando a palavra não tem mais lugar ou assento, a pessoa morre e torna-se um devir, um não-ser, uma palavra-que-não-é-mais. (...) Ñe'ẽ e ayvu podem ser traduzidos tanto como ‘palavra’ como por ‘alma’, com o mesmo significado de ‘minha palavra sou eu’ ou ‘minha alma sou eu’. (...) Assim, alma e palavra podem adjetivar-se mutuamente, podendo-se falar em palavra-alma ou alma-palavra, sendo a alma não uma parte, mas a vida como um todo.” 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Borges e Eliot. Textos que se comunicam.


O fio da fábula

O fio que a mão de Ariadne deixou na mão de Teseu (na outra estava a espada) para que este se aventurasse no labirinto e descobrisse o centro, o homem com cabeça de touro ou, como pretende Dante, o touro com cabeça de homem, e o matasse e pudesse, já executada a proeza, decifrar as redes de pedra e voltar para ela, para o seu amor.
As coisas aconteceram assim. Teseu não podia saber que do outro lado do labirinto estava o outro labirinto, o do tempo, e que num lugar já fixado estava Medeia.
O fio perdeu-se, o labirinto perdeu-se também. Agora nem sequer sabemos se nos rodeia um labirinto, um secreto cosmos ou um caos ocasional. O nosso mais belo dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos e o percamos num acto de fé, num ritmo, no sono, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade. 

Cnossos, 1984.

J. L. Borges in Os Conjurados, 1985.



T.S. Eliot

  • And so each venture
    Is a new beginning, a raid on the inarticulate,
    With shabby equipment always deteriorating
    In the general mess of imprecision of feeling,
    Undisciplined squads of emotion. And what there is to conquer
    By strength and submission, has already been discovered
    Once or twice, or several times, by men whom one cannot hope
    To emulate —but there is no competition—
    There is only the fight to recover what has been lost
    And found and lost again and again: and now, under conditions
    That seem unpropitious.
     But perhaps neither gain nor loss.
    For us, there is only the trying. The rest is not our business. (V)
  • Home is where one starts from. As we grow older
    The world becomes stranger, the pattern more complicated
    Of dead and living. Not the intense moment
    Isolated, with no before and after,
    But a lifetime burning in every moment
    And not the lifetime of one man only
    But of old stones that cannot be deciphered.
     (V)
  • Love is most nearly itself
    When here and now cease to matter.

    Old men ought to be explorers
    Here or there does not matter
    We must be still and still moving
    Into another intensity
    For a further union, a deeper communion

    Through the dark cold and the empty desolation,
    The wave cry, the wind cry, the vast waters
    Of the petrel and the porpoise. In my end is my beginning. 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Agostinho da Silva


O Professor como Mestre

Não me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma é burocrática e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profissão; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa inteligência e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das atenções das pessoas mais sérias; creio mesmo que tal distinção foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, é sempre possível a comparação com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de mérito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre não é de modo algum um emprego e que a sua actividade se não pode aferir pelos métodos correntes; ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo; e o que importa, no seu juízo final, não é a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente há-de pesar na balança é a pedra que lançou para os alicerces do futuro.


A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama; errou o que se fez professor e desconfia dos homens, se defende deles, evita ir ao seu encontro de coração aberto, paga falta com falta e se mantém na moral da luta; esse jamais tornará melhores os seus alunos; poderão ser excelentes as palavras que profere; mas o moço que o escuta vai rindo por dentro porque só o exemplo o abala. Outros há que fazem da marcha do homem sobre a Terra uma estranha concepção; vêem-no girando perpetuamente nos batidos caminhos; e, julgando o mundo por si, não descobrem em volta mais que uma eterna condenação à maldade, à cegueira e à miséria; bem no fundo da alma nenhuma luz que os alumie e solicite; porque não acreditam em progresso nenhuma vontade de melhorar; são os que troçam daquilo a que chamam «a pedagogia moderna»; são os que se riem de certos loucos que pensam o contrário. 

Ora o mestre não se fez para rir; é de facto um mestre aquele de que os outros se riem, aquele de que troçam todos os prudentes e todos os bem estabelecidos; pertence-lhe ser extravagante, defender os ideais absurdos, acreditar num futuro de generosidade e de justiça, despojar-se ele próprio de comodidades e de bens, viver incerta vida, ser junto dos irmãos homens e da irmã Natureza inteligência e piedade; a ninguém terá rancor, saberá compreender todas as cóleras e todos os desprezos, pagará o mal com o bem, num esforço obstinado para que o ódio desapareça do mundo; não verá no aluno um inimigo natural, mas o mais belo dom que lhe poderiam conceder; perante ele e os outros nenhum desejo de domínio; o mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não o interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor — eis todo o seu programa; para si mesmo, a dádiva contínua, a humildade e o amor do próximo. 

Agostinho da Silva, in 'Considerações'









Robert Fulghum - "All I really need to know I learned in kindergarten."


http://pt.scribd.com/doc/6664708/Tudo-Que-Eu-Devia-Saber-Aprendi-No-JardimDeInfancia-Robert-Fulghum

Benditos os que semeam jardins assim.


ALL I REALLY NEED TO KNOW about how to live and what to do
and how to be I learned in kindergarten. Wisdom was not
at the top of the graduate-school mountain, but there in the
sandpile at Sunday School. These are the things I learned:


Share everything.

Play fair.

Don't hit people.

Put things back where you found them.

Clean up your own mess.

Don't take things that aren't yours.

Say you're sorry when you hurt somebody.

Wash your hands before you eat.

Flush.

Warm cookies and cold milk are good for you.

Live a balanced life - learn some and think some
and draw and paint and sing and dance and play
and work every day some.

Take a nap every afternoon.

When you go out into the world, watch out for traffic,
hold hands, and stick together.

Be aware of wonder.
Remember the little seed in the styrofoam cup:
The roots go down and the plant goes up and nobody
really knows how or why, but we are all like that.

Goldfish and hamsters and white mice and even
the little seed in the Styrofoam cup - they all die.
So do we.

And then remember the Dick-and-Jane books
and the first word you learned - the biggest
word of all - LOOK.



Everything you need to know is in there somewhere.
The Golden Rule and love and basic sanitation.
Ecology and politics and equality and sane living.

Take any of those items and extrapolate it into
sophisticated adult terms and apply it to your
family life or your work or your government or
your world and it holds true and clear and firm.
Think what a better world it would be if
all - the whole world - had cookies and milk about
three o'clock every afternoon and then lay down with
our blankies for a nap. Or if all governments
had a basic policy to always put thing back where
they found them and to clean up their own mess.

And it is still true, no matter how old you
are - when you go out into the world, it is best
to hold hands and stick together.



TRADUÇÃO:


Tudo o que realmente vale a pena saber, eu aprendi no jardim de infância.

Tudo o que hoje preciso realmente saber, sobre como viver, o que fazer e como ser, eu aprendi no jardim de infância. A sabedoria não se encontrava no topo de um curso de pós-graduação, mas no montinho de areia da escola de todo dia. Estas são as coisas que aprendi lá:

1. Compartilhe tudo.
2. Jogue dentro das regras.
3. Não bata nos outros.
4. Coloque as coisas de volta onde pegou.
5. Arrume a sua bagunça.
6. Não pegue as coisas dos outros.
7. Peça desculpas quando machucar alguém.
8. Lave as mãos antes de comer e reze antes de deitar.
9. Dê descarga.
10. Biscoitos quentinhos e leite fazem bem para você.
11. Respeite o outro.
12. Leve uma vida equilibrada: aprenda um pouco, pense um pouco... e desenhe.. e pinte... e cante... e dance... e brinque... e trabalhe um pouco todos os dias.
13. Tire uma soneca às tardes.
14. Quando sair, cuidado com os carros.
15. Dê a mão e fique junto.
16. Repare nas maravilhas da vida.
17. O peixinho dourado, o hamster, o camundongo branco e até mesmo a sementinha no copinho plástico, todos morrem... nós também.


Pense como o mundo seria melhor se todos nós, no mundo todo, tivéssemos biscoitos e leite todos os dias por volta das três da tarde e pudéssemos nos deitar com um cobertorzinho para uma soneca. Ou se todos os governos tivessem como regra básica devolver as coisas ao lugar em que elas se encontravam e arrumassem a bagunça ao sair.

Estas são verdades, não importa a idade.

Ao sair para o mundo é sempre melhor darmos as mãos e ficarmos juntos.

domingo, 21 de outubro de 2012

Embalzacada!



                         Conheço-o agora, aos 47, na hora certa; aos trinta não o teria apreciado tanto.
                                          Buarque e Balzac são a nossa "mais completa tradução".
                                             
                                                      
                                                      

"Durante a rápida estação em que a mulher permanece em flor, os caracteres da sua beleza servem admiravelmente bem à dissimulação à qual a sua fraqueza natural e as leis sociais a condenam. Sob o rico colorido do seu viçoso rosto, sob o fogo dos seus olhos, sob a fina textura das suas feições tão delicadas, com tantas linhas curvas ou retas, mas puras e perfeitamente determinadas, todas as suas comoções podem permanecer secretas: o rubor então nada revela, aumentando ainda mais cores já tão vivas; todos os focos interiores concordam tão bem com a luz desses olhos brilhantes de vida que a fugaz chama de um sofrimento aparece apenas como um encanto a mais. Por isso, nada há mais discreto do que um rosto juvenil, porque também não há nada mais imóvel. A fisionomia de uma jovem tem a serenidade, o polido, o frescor da superfície de um lago; a das mulheres só se revela aos trinta anos. Até essa idade, o pintor só lhes acha no rosto róseos e brancos sorrisos e expressões que repetem um mesmo pensamento, pensamento de mocidade e de amor, pensamento uniforme e sem profundidade; mas, na velhice, tudo na mulher fala, as paixões incrustaram-se-lhe no rosto; foi amante, esposa, mãe; as mais violentas expressões de alegria e de dor acabaram por alterar-lhe, torturar-lhe o rosto, formando aí mil rugas, tendo todas uma linguagem; e uma fronte de mulher torna-se, então, sublime pelo horror, bela pela melancolia, ou magnífica pela serenidade; se se permite desenvolver esta estranha metáfora, o lago seco deixa então ver todos os traços das torrentes que o produziram; uma fronte de mulher velha já então não pertence nem ao mundo, que, frívolo, se assusta de ver a destruição de todas as idéias de elegância a que está habituado, nem aos artistas vulgares, que nada descobrem por aí; mas, sim, aos verdadeiros poetas, àqueles que possuem o sentimento de uma beleza independente de todas as convenções sobre as quais repousam tantos preconceitos sobre a arte e a formosura.
Ainda que a senhora d’Aiglemont usasse um chapéu moderno, era fácil ver que seus cabelos haviam embranquecido, devido a comoções cruéis; mas a maneira como os usava, separados ao meio, traía seu bom-gosto, revelava seus graciosos hábitos de mulher elegante e desenhava perfeitamente sua fronte envelhecida, enrugada, na qual se encontravam ainda assim vestígios do seu antigo brilho. A forma do rosto, a regularidade das feições davam uma idéia, fraca na verdade, da beleza de que fora, por certo, orgulhosa; porém esses indícios acusavam ainda mais as dores que deviam ter sido agudíssimas, para encovar-lhe o rosto, dessecar as têmporas, reentrar as faces, macerar as pálpebras e desguarnecer de cílios o olhar grácil. Tudo era silencioso naquela mulher: o andar e os movimentos tinham esse sossego grave e recolhido que imprime o respeito. Sua modéstia, transmudada em timidez, parecia ser o resultado do hábito, que tomara havia alguns anos, de se eclipsar na presença da filha; suas palavras eram raras, suaves, como as de todas as pessoas habituadas a refletir, a concentrar-se, a viver consigo mesmas. "

José Jeremias - "Aos meus filhos."




                             
                                 
                                      

Que vôo provisório as andorinhas ensaiam

nos telhados desta casa?

O inverno se aproxima com seus ventres falantes
E elas vão ensaiando as montanhas distantes.
Vão lembrando o futuro
Exercitando as asas.

Voltarão sempre cada vez mais longe.
Até que não encontrem esta casa branca
sinalizando o nevoeiro.