domingo, 21 de outubro de 2012

Embalzacada!



                         Conheço-o agora, aos 47, na hora certa; aos trinta não o teria apreciado tanto.
                                          Buarque e Balzac são a nossa "mais completa tradução".
                                             
                                                      
                                                      

"Durante a rápida estação em que a mulher permanece em flor, os caracteres da sua beleza servem admiravelmente bem à dissimulação à qual a sua fraqueza natural e as leis sociais a condenam. Sob o rico colorido do seu viçoso rosto, sob o fogo dos seus olhos, sob a fina textura das suas feições tão delicadas, com tantas linhas curvas ou retas, mas puras e perfeitamente determinadas, todas as suas comoções podem permanecer secretas: o rubor então nada revela, aumentando ainda mais cores já tão vivas; todos os focos interiores concordam tão bem com a luz desses olhos brilhantes de vida que a fugaz chama de um sofrimento aparece apenas como um encanto a mais. Por isso, nada há mais discreto do que um rosto juvenil, porque também não há nada mais imóvel. A fisionomia de uma jovem tem a serenidade, o polido, o frescor da superfície de um lago; a das mulheres só se revela aos trinta anos. Até essa idade, o pintor só lhes acha no rosto róseos e brancos sorrisos e expressões que repetem um mesmo pensamento, pensamento de mocidade e de amor, pensamento uniforme e sem profundidade; mas, na velhice, tudo na mulher fala, as paixões incrustaram-se-lhe no rosto; foi amante, esposa, mãe; as mais violentas expressões de alegria e de dor acabaram por alterar-lhe, torturar-lhe o rosto, formando aí mil rugas, tendo todas uma linguagem; e uma fronte de mulher torna-se, então, sublime pelo horror, bela pela melancolia, ou magnífica pela serenidade; se se permite desenvolver esta estranha metáfora, o lago seco deixa então ver todos os traços das torrentes que o produziram; uma fronte de mulher velha já então não pertence nem ao mundo, que, frívolo, se assusta de ver a destruição de todas as idéias de elegância a que está habituado, nem aos artistas vulgares, que nada descobrem por aí; mas, sim, aos verdadeiros poetas, àqueles que possuem o sentimento de uma beleza independente de todas as convenções sobre as quais repousam tantos preconceitos sobre a arte e a formosura.
Ainda que a senhora d’Aiglemont usasse um chapéu moderno, era fácil ver que seus cabelos haviam embranquecido, devido a comoções cruéis; mas a maneira como os usava, separados ao meio, traía seu bom-gosto, revelava seus graciosos hábitos de mulher elegante e desenhava perfeitamente sua fronte envelhecida, enrugada, na qual se encontravam ainda assim vestígios do seu antigo brilho. A forma do rosto, a regularidade das feições davam uma idéia, fraca na verdade, da beleza de que fora, por certo, orgulhosa; porém esses indícios acusavam ainda mais as dores que deviam ter sido agudíssimas, para encovar-lhe o rosto, dessecar as têmporas, reentrar as faces, macerar as pálpebras e desguarnecer de cílios o olhar grácil. Tudo era silencioso naquela mulher: o andar e os movimentos tinham esse sossego grave e recolhido que imprime o respeito. Sua modéstia, transmudada em timidez, parecia ser o resultado do hábito, que tomara havia alguns anos, de se eclipsar na presença da filha; suas palavras eram raras, suaves, como as de todas as pessoas habituadas a refletir, a concentrar-se, a viver consigo mesmas. "

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