REENCONTRO
Percorres a casa e observas: o corredor é longo,
quantos quartos, e eu navego teus olhos
escavando
nossos corpos noturnos mapeados.
Pouco a pouco as formas endurecem e nos vemos
por fim pacificados: não sou quem pensas não és
quem penso,
amargos nos deixamos tão carentes
desta fome por tanto acumulada.
Chegaste agora quando a vida é escombros e nossas
outras imagens
se entrelaçam mas não basta, e nossos corpos
! se esfriam geminados.
; Por entre lençóis e amoras por entre veios
e gomos cavamos nosso vazio e ali
nos interpomos:
do que não somos saudosos
sobreviventes do que fomos.
O PÁSSARO INCUBADO
O pássaro preso na gaiola
é um geógrafo quase alheio:
Prefere, do mundo que o cerca,
não as arestas: o meio.
É isso que o diferencia
dos outros pássaros: ser duro.
Habita cada momento
que existe dentro do cubo.
Ao pássaro preso se nega
a condição acabado.
Não é um pássaro que voa:
É um pássaro incubado.
Falta a ele: não espaços
nem horizontes nem casas:
Sobra-lhe uma roupa enjeitada
que lhe decepa as asas.
O pássaro preso é um pássaro
recortado em seu domínio:
Não é dono de onde mora,
nem mora onde é inquilino.
RIO, 1963.
Poesia
Eu não te escrevo
Eu te
Vivo
E viva nós!
Eu não te escrevo
Eu te
Vivo
E viva nós!
(Cacaso, Beijo na boca e outros poemas, 1985)
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