quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Cacaso.

REENCONTRO

Percorres a casa e observas: o corredor é longo,
quantos quartos, e eu navego teus olhos
                                              escavando
nossos corpos noturnos mapeados.
Pouco a pouco as formas endurecem e nos vemos
por fim pacificados: não sou quem pensas não és    
       quem penso,
amargos nos deixamos tão carentes
desta fome por tanto acumulada.
Chegaste agora quando a vida é escombros e nossas
                                              outras imagens
se entrelaçam mas não basta, e nossos corpos
!   se esfriam geminados.
;   Por entre lençóis e amoras por entre veios
e gomos cavamos nosso vazio e ali
                                              nos interpomos:
                                       do que não somos saudosos
sobreviventes do que fomos.




O PÁSSARO INCUBADO

O pássaro preso na gaiola
é um geógrafo quase alheio:
Prefere, do mundo que o cerca,
não as arestas: o meio.

É isso que o diferencia
dos outros pássaros: ser duro.
Habita cada momento
que existe dentro do cubo.

Ao pássaro preso se nega
a condição acabado.
Não é um pássaro que voa:
É um pássaro incubado.

Falta a ele: não espaços
nem horizontes nem casas:
Sobra-lhe uma roupa enjeitada
que lhe decepa as asas.

O pássaro preso é um pássaro
recortado em seu domínio:
Não é dono de onde mora,
nem mora onde é inquilino.

RIO, 1963.





Poesia
Eu não te escrevo
Eu te
Vivo
E viva nós!

                                   (Cacaso, Beijo na boca e outros poemas, 1985)

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