sábado, 27 de outubro de 2012

Clarice Lispector.

A Lucidez Perigosa

Estou sentindo uma clareza tão grande 
que me anula como pessoa atual e comum: 
é uma lucidez vazia, como explicar? 
assim como um cálculo matemático perfeito 
do qual, no entanto, não se precise. 

Estou por assim dizer 
vendo claramente o vazio. 
E nem entendo aquilo que entendo: 
pois estou infinitamente maior que eu mesma, 
e não me alcanço. 
Além do que: 
que faço dessa lucidez? 
Sei também que esta minha lucidez 
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes. 

Pois sei que 
- em termos de nossa diária 
e permanente acomodação 
resignada à irrealidade
- essa clareza de realidade 
é um risco. 

Apagai, pois, minha flama, Deus, 
porque ela não me serve 
para viver os dias. 
Ajudai-me a de novo consistir 
dos modos possíveis. 
Eu consisto, 
eu consisto, 
amém.

Nenhum comentário:

Postar um comentário