domingo, 21 de outubro de 2012
A. Estebanez
Pra mim, é um belíssimo epitáfio:
"...Hoje sou pastor de rios sentinela de colinas mirante
das fortalezas nas ameias das neblinas...É por mim que
à noite os ventos vêm chorar sobre as ruínas..."
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Affonso Romano de Sant´Anna.
Silêncio Amoroso
Preciso do teu silêncio
cúmplice sobre minhas falhas.
Não fale.
Um sopro, a menor vogal pode me
desamparar.
E se eu abrir a boca minha alma vai rachar.
O silêncio, aprendo, pode construir. É um
modo
denso/tenso - de coexistir.
Calar, às vezes, é fina forma de amar.
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Cacaso.
REENCONTRO
Percorres a casa e observas: o corredor é longo,
quantos quartos, e eu navego teus olhos
escavando
nossos corpos noturnos mapeados.
Pouco a pouco as formas endurecem e nos vemos
por fim pacificados: não sou quem pensas não és
quem penso,
amargos nos deixamos tão carentes
desta fome por tanto acumulada.
Chegaste agora quando a vida é escombros e nossas
outras imagens
se entrelaçam mas não basta, e nossos corpos
! se esfriam geminados.
; Por entre lençóis e amoras por entre veios
e gomos cavamos nosso vazio e ali
nos interpomos:
do que não somos saudosos
sobreviventes do que fomos.
O PÁSSARO INCUBADO
O pássaro preso na gaiola
é um geógrafo quase alheio:
Prefere, do mundo que o cerca,
não as arestas: o meio.
É isso que o diferencia
dos outros pássaros: ser duro.
Habita cada momento
que existe dentro do cubo.
Ao pássaro preso se nega
a condição acabado.
Não é um pássaro que voa:
É um pássaro incubado.
Falta a ele: não espaços
nem horizontes nem casas:
Sobra-lhe uma roupa enjeitada
que lhe decepa as asas.
O pássaro preso é um pássaro
recortado em seu domínio:
Não é dono de onde mora,
nem mora onde é inquilino.
RIO, 1963.
Poesia
Eu não te escrevo
Eu te
Vivo
E viva nós!
Eu não te escrevo
Eu te
Vivo
E viva nós!
(Cacaso, Beijo na boca e outros poemas, 1985)
sábado, 6 de outubro de 2012
Cidade ideal.
"Deve ter alamedas verdes
A cidade dos meus amores
E, quem dera, os moradores
O prefeito e os varredores
Fossem somente crianças."
Estou longe da minha zona franca, eleitoral... E devo dizer que faz-me falta o combate, pois nas impenetráveis e desconhecidas zonas alheias não nos é permitido beber nem comer o que os outros partiram e partidarizaram e conosco não repartem.
Confesso que em política, tenho sangue mui caliente, mas no exílio voluntário que experimento, permito-me apenas pensar, e pensar baixo! - porque gente como eu, tem pensamentos falantes - e prosseguir fazendo minha pequena parte pela Cidade Ideal "que ainda às vezes em sonhos me aparece"; cidade que não sei sequer se existe ou existirá em algum lugar; sei apenas que existe em mim, tal qual deve ter existido para Neruda que, em seu"Para Nascer Nascí", bem na última página e citando o grande poeta Rimbaud, a descreve assim:
"Um pobre e esplêndido poeta, escreveu esta profecia: "Ao amanhecer, armados de uma ardente paciência, entraremos nas esplêndidas cidades". Eu creio nesta profecia de Rimbaud... Sempre tive confiança no homem. Não Perdi jamais a esperança. Por isso talvez cheguei aqui com a minha poesia, e também com a minha bandeira. Em conclusão, devo dizer aos homens de boa vontade. aos trabalhadores, aos poetas, que todo o porvir foi expresso nessa frase de Rimbaud: só com uma ardente paciência conquistaremos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens. Assim a poesia não terá cantado em vão."
E ainda, como nos Saltimbancos de Chico Buarque, minha cidade ideal é toda feita de crianças, porque "o sonho é meu e eu sonho que..."
Bem... aprendi a custo, e hoje já sei entregar pacientemente aos próximos dias, meses e anos - a despeito de tudo, e se me couberem -, o trabalho de fazerem dentro de mim o milagre de seguir como Neruda: simplesmente crendo!
Afinal, de contas, é como fazem as crianças!
Afinal, de contas, é como fazem as crianças!
É bem melhor assim... é como é pra mim.
E pra ti?
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Luis Filipe Castro Mendes - Romance de Nós.
Estou à beira do mar,
estou à beira de ti.
Ardem no meu olhar
os sonhos que não vi.
Tudo em nós foi naufrágio,
não quisemos saber:
fizemos nosso adágio
do que não pôde ser.
Que resta do amor
a quem é como nós?
Envergonha-me pôr
em verso: «somos sós;
sós como amanhecer
às avessas do mundo;
sós como podem ser
as areias no fundo;
somos sós e sabê-lo
é negar o pronome
que de nós fez novelo
e por nós se consome.
Luis Filipe Castro Mendes, in "Modos de Música"
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