terça-feira, 30 de outubro de 2012

Manuel António Pina.

                                         A MEU FAVOR TENHO O TEU OLHAR

                                                            


   A meu favor tenho o teu olhar

testemunhando por mim

perante juízes terríveis:



a morte, os amigos, os inimigos.







E aqueles que me assaltam

à noite na solidão do quarto

refugiam-se em fundos sítios dentro de mim

quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.



Protege-me com ele, com o teu olhar,

dos demônios da noite e das aflições do dia,

fala em voz alta, não deixes que adormeça,

afasta de mim o pecado da infelicidade.





domingo, 28 de outubro de 2012

Arthur Schopenhauer.

          Com o auxílio luxuoso da filosofia vou tecendo e esgarçando fio a fio o que sou e penso ser...
                 Compartilho com quem deseja o exercício, este belo texto de Schopenhauer.                                          


                                    Quem não Ama a Solidão, não Ama a Liberdade

Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças (high life), pois, quando tentamos transformar a nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas. 
Assim como o nosso corpo está envolto em vestes, o nosso espírito está revestido de mentiras. Os nossos dizeres, as nossas ações, todo o nosso ser é mentiroso, e só por meio desse invólucro pode-se, por vezes, adivinhar a nossa verdadeira mentalidade, assim como pelas vestes se adivinha a figura do corpo.

Antes de mais nada, toda a sociedade exige necessariamente uma acomodação mútua e uma temperatura; por conseguinte, quanto mais numerosa, tanto mais enfadonha será. Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre.
A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.

Ademais, quanto mais elevada for a posição de uma pessoa na escala hierárquica da natureza, tanto mais solitária será, essencial e inevitavelmente. Assim, é um benefício para ela se à solidão física corresponder a intelectual. Caso contrário, a vizinhança frequente de seres heterogêneos causa um efeito incômodo e até mesmo adverso sobre ela, ao roubar-lhe seu «eu» sem nada lhe oferecer em troca. Além disso, enquanto a natureza estabeleceu entre os homens a mais ampla diversidade nos domínios moral e intelectual, a sociedade, não tomando conhecimento disso, iguala todos os seres ou, antes, coloca no lugar da diversidade as diferenças e degraus artificiais de classe e posição, com frequência diametralmente opostos à escala hierárquica da natureza.
Nesse arranjo, aqueles que a natureza situou em baixo encontram-se em ótima situação; os poucos, entretanto, que ela colocou em cima, saem em desvantagem. Como consequência, estes costumam esquivar-se da sociedade, na qual, ao tornar-se numerosa, a vulgaridade domina.

sábado, 27 de outubro de 2012

Hermínio Belo de Carvalho e Capiba.

"AMIGO É CASA."

A belíssima letra do Hermínio B. de Carvalho para a Melodia do Capiba, fez desta canção uma verdadeira ode à Amizade; e ainda mais emocionante com a interpretação de Simone e ZD.
Uma riqueza!


 Amigo é feito casa que se faz aos poucos 
e com paciência pra durar pra sempre 
Mas é preciso ter muito tijolo e terra 
preparar reboco, construir tramelas 
Usar a sapiência de um João-de-barro 
que constrói com arte a sua residência 
há que o alicerce seja muito resistente 
que às chuvas e aos ventos possa então a proteger 
E há que fincar muito jequitibá 
e vigas de jatobá 
e adubar o jardim e plantar muita flor toiceiras de resedás 
não falte um caramanchão pros tempos idos lembrar 
que os cabelos brancos vão surgindo 
Que nem mato na roceira 
que mal dá pra capinar 
e há que ver os pés de manacá 
cheinhos de sabiás 
sabendo que os rouxinóis vão trazer arrebóis 
choro de imaginar! 
pra festa da cumieira não faltem os violões! 
muito milho ardendo na fogueira 
e quentão farto em gengibre 
aquecendo os corações 
A casa é amizade construída aos poucos 
e que a gente quer com beira e tribeira 
Com gelosia feita de matéria rara 
e altas platibandas, com portão bem largo 
que é pra se entrar sorrindo 
nas horas incertas 
sem fazer alarde, sem causar transtorno 
Amigo que é amigo quando quer estar presente 
faz-se quase transparente sem deixar-se perceber 
Amigo é pra ficar, se chegar, se achegar, 
se abraçar, se beijar, se louvar, bendizer 
Amigo a gente acolhe, recolhe e agasalha 
e oferece lugar pra dormir e comer 
Amigo que é amigo não puxa tapete 
oferece pra gente o melhor que tem e o que nem tem 
quando não tem, finge que tem, 
faz o que pode e o seu coração reparte que nem pão.




Clarice Lispector.

A Lucidez Perigosa

Estou sentindo uma clareza tão grande 
que me anula como pessoa atual e comum: 
é uma lucidez vazia, como explicar? 
assim como um cálculo matemático perfeito 
do qual, no entanto, não se precise. 

Estou por assim dizer 
vendo claramente o vazio. 
E nem entendo aquilo que entendo: 
pois estou infinitamente maior que eu mesma, 
e não me alcanço. 
Além do que: 
que faço dessa lucidez? 
Sei também que esta minha lucidez 
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes. 

Pois sei que 
- em termos de nossa diária 
e permanente acomodação 
resignada à irrealidade
- essa clareza de realidade 
é um risco. 

Apagai, pois, minha flama, Deus, 
porque ela não me serve 
para viver os dias. 
Ajudai-me a de novo consistir 
dos modos possíveis. 
Eu consisto, 
eu consisto, 
amém.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O triste fim do "Teko porã" Guarani.


O belíssimo artigo de Eliane Brum para a revista Época, que me fez estremecer de dor e emoção.
Um trecho do artigo:

É importante lembrar que carta é palavra. A declaração de morte coletiva surge como palavra dita. Por isso precisamos compreender, pelo menos um pouco, o que é a palavra para os Guaranis Caiovás. Em um texto muito bonito, intitulado Ñe'ẽ – a palavra alma, a antropóloga Graciela Chamorro, da Universidade Federal da Grande Dourados, nos dá algumas pistas: 
“A palavra é a unidade mais densa que explica como se trama a vida para os povos chamados guarani e como eles imaginam o transcendente. As experiências da vida são experiências de palavra. Deus é palavra. (...) O nascimento, como o momento em que a palavra se senta ou provê para si um lugar no corpo da criança. A palavra circula pelo esqueleto humano. Ela é justamente o que nos mantém em pé, que nos humaniza. (...) Na cerimônia de nominação, o xamã revelará o nome da criança, marcando com isso a recepção oficial da nova palavra na comunidade. (...) As crises da vida – doenças, tristezas, inimizades etc. – são explicadas como um afastamento da pessoa de sua palavra divinizadora. Por isso, os rezadores e as rezadoras se esforçam para ‘trazer de volta’, ‘voltar a sentar’ a palavra na pessoa, devolvendo-lhe a saúde.(...) Quando a palavra não tem mais lugar ou assento, a pessoa morre e torna-se um devir, um não-ser, uma palavra-que-não-é-mais. (...) Ñe'ẽ e ayvu podem ser traduzidos tanto como ‘palavra’ como por ‘alma’, com o mesmo significado de ‘minha palavra sou eu’ ou ‘minha alma sou eu’. (...) Assim, alma e palavra podem adjetivar-se mutuamente, podendo-se falar em palavra-alma ou alma-palavra, sendo a alma não uma parte, mas a vida como um todo.” 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Borges e Eliot. Textos que se comunicam.


O fio da fábula

O fio que a mão de Ariadne deixou na mão de Teseu (na outra estava a espada) para que este se aventurasse no labirinto e descobrisse o centro, o homem com cabeça de touro ou, como pretende Dante, o touro com cabeça de homem, e o matasse e pudesse, já executada a proeza, decifrar as redes de pedra e voltar para ela, para o seu amor.
As coisas aconteceram assim. Teseu não podia saber que do outro lado do labirinto estava o outro labirinto, o do tempo, e que num lugar já fixado estava Medeia.
O fio perdeu-se, o labirinto perdeu-se também. Agora nem sequer sabemos se nos rodeia um labirinto, um secreto cosmos ou um caos ocasional. O nosso mais belo dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos e o percamos num acto de fé, num ritmo, no sono, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade. 

Cnossos, 1984.

J. L. Borges in Os Conjurados, 1985.



T.S. Eliot

  • And so each venture
    Is a new beginning, a raid on the inarticulate,
    With shabby equipment always deteriorating
    In the general mess of imprecision of feeling,
    Undisciplined squads of emotion. And what there is to conquer
    By strength and submission, has already been discovered
    Once or twice, or several times, by men whom one cannot hope
    To emulate —but there is no competition—
    There is only the fight to recover what has been lost
    And found and lost again and again: and now, under conditions
    That seem unpropitious.
     But perhaps neither gain nor loss.
    For us, there is only the trying. The rest is not our business. (V)
  • Home is where one starts from. As we grow older
    The world becomes stranger, the pattern more complicated
    Of dead and living. Not the intense moment
    Isolated, with no before and after,
    But a lifetime burning in every moment
    And not the lifetime of one man only
    But of old stones that cannot be deciphered.
     (V)
  • Love is most nearly itself
    When here and now cease to matter.

    Old men ought to be explorers
    Here or there does not matter
    We must be still and still moving
    Into another intensity
    For a further union, a deeper communion

    Through the dark cold and the empty desolation,
    The wave cry, the wind cry, the vast waters
    Of the petrel and the porpoise. In my end is my beginning. 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Agostinho da Silva


O Professor como Mestre

Não me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma é burocrática e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profissão; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa inteligência e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das atenções das pessoas mais sérias; creio mesmo que tal distinção foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, é sempre possível a comparação com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de mérito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre não é de modo algum um emprego e que a sua actividade se não pode aferir pelos métodos correntes; ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo; e o que importa, no seu juízo final, não é a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente há-de pesar na balança é a pedra que lançou para os alicerces do futuro.


A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama; errou o que se fez professor e desconfia dos homens, se defende deles, evita ir ao seu encontro de coração aberto, paga falta com falta e se mantém na moral da luta; esse jamais tornará melhores os seus alunos; poderão ser excelentes as palavras que profere; mas o moço que o escuta vai rindo por dentro porque só o exemplo o abala. Outros há que fazem da marcha do homem sobre a Terra uma estranha concepção; vêem-no girando perpetuamente nos batidos caminhos; e, julgando o mundo por si, não descobrem em volta mais que uma eterna condenação à maldade, à cegueira e à miséria; bem no fundo da alma nenhuma luz que os alumie e solicite; porque não acreditam em progresso nenhuma vontade de melhorar; são os que troçam daquilo a que chamam «a pedagogia moderna»; são os que se riem de certos loucos que pensam o contrário. 

Ora o mestre não se fez para rir; é de facto um mestre aquele de que os outros se riem, aquele de que troçam todos os prudentes e todos os bem estabelecidos; pertence-lhe ser extravagante, defender os ideais absurdos, acreditar num futuro de generosidade e de justiça, despojar-se ele próprio de comodidades e de bens, viver incerta vida, ser junto dos irmãos homens e da irmã Natureza inteligência e piedade; a ninguém terá rancor, saberá compreender todas as cóleras e todos os desprezos, pagará o mal com o bem, num esforço obstinado para que o ódio desapareça do mundo; não verá no aluno um inimigo natural, mas o mais belo dom que lhe poderiam conceder; perante ele e os outros nenhum desejo de domínio; o mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não o interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor — eis todo o seu programa; para si mesmo, a dádiva contínua, a humildade e o amor do próximo. 

Agostinho da Silva, in 'Considerações'









Robert Fulghum - "All I really need to know I learned in kindergarten."


http://pt.scribd.com/doc/6664708/Tudo-Que-Eu-Devia-Saber-Aprendi-No-JardimDeInfancia-Robert-Fulghum

Benditos os que semeam jardins assim.


ALL I REALLY NEED TO KNOW about how to live and what to do
and how to be I learned in kindergarten. Wisdom was not
at the top of the graduate-school mountain, but there in the
sandpile at Sunday School. These are the things I learned:


Share everything.

Play fair.

Don't hit people.

Put things back where you found them.

Clean up your own mess.

Don't take things that aren't yours.

Say you're sorry when you hurt somebody.

Wash your hands before you eat.

Flush.

Warm cookies and cold milk are good for you.

Live a balanced life - learn some and think some
and draw and paint and sing and dance and play
and work every day some.

Take a nap every afternoon.

When you go out into the world, watch out for traffic,
hold hands, and stick together.

Be aware of wonder.
Remember the little seed in the styrofoam cup:
The roots go down and the plant goes up and nobody
really knows how or why, but we are all like that.

Goldfish and hamsters and white mice and even
the little seed in the Styrofoam cup - they all die.
So do we.

And then remember the Dick-and-Jane books
and the first word you learned - the biggest
word of all - LOOK.



Everything you need to know is in there somewhere.
The Golden Rule and love and basic sanitation.
Ecology and politics and equality and sane living.

Take any of those items and extrapolate it into
sophisticated adult terms and apply it to your
family life or your work or your government or
your world and it holds true and clear and firm.
Think what a better world it would be if
all - the whole world - had cookies and milk about
three o'clock every afternoon and then lay down with
our blankies for a nap. Or if all governments
had a basic policy to always put thing back where
they found them and to clean up their own mess.

And it is still true, no matter how old you
are - when you go out into the world, it is best
to hold hands and stick together.



TRADUÇÃO:


Tudo o que realmente vale a pena saber, eu aprendi no jardim de infância.

Tudo o que hoje preciso realmente saber, sobre como viver, o que fazer e como ser, eu aprendi no jardim de infância. A sabedoria não se encontrava no topo de um curso de pós-graduação, mas no montinho de areia da escola de todo dia. Estas são as coisas que aprendi lá:

1. Compartilhe tudo.
2. Jogue dentro das regras.
3. Não bata nos outros.
4. Coloque as coisas de volta onde pegou.
5. Arrume a sua bagunça.
6. Não pegue as coisas dos outros.
7. Peça desculpas quando machucar alguém.
8. Lave as mãos antes de comer e reze antes de deitar.
9. Dê descarga.
10. Biscoitos quentinhos e leite fazem bem para você.
11. Respeite o outro.
12. Leve uma vida equilibrada: aprenda um pouco, pense um pouco... e desenhe.. e pinte... e cante... e dance... e brinque... e trabalhe um pouco todos os dias.
13. Tire uma soneca às tardes.
14. Quando sair, cuidado com os carros.
15. Dê a mão e fique junto.
16. Repare nas maravilhas da vida.
17. O peixinho dourado, o hamster, o camundongo branco e até mesmo a sementinha no copinho plástico, todos morrem... nós também.


Pense como o mundo seria melhor se todos nós, no mundo todo, tivéssemos biscoitos e leite todos os dias por volta das três da tarde e pudéssemos nos deitar com um cobertorzinho para uma soneca. Ou se todos os governos tivessem como regra básica devolver as coisas ao lugar em que elas se encontravam e arrumassem a bagunça ao sair.

Estas são verdades, não importa a idade.

Ao sair para o mundo é sempre melhor darmos as mãos e ficarmos juntos.

domingo, 21 de outubro de 2012

Embalzacada!



                         Conheço-o agora, aos 47, na hora certa; aos trinta não o teria apreciado tanto.
                                          Buarque e Balzac são a nossa "mais completa tradução".
                                             
                                                      
                                                      

"Durante a rápida estação em que a mulher permanece em flor, os caracteres da sua beleza servem admiravelmente bem à dissimulação à qual a sua fraqueza natural e as leis sociais a condenam. Sob o rico colorido do seu viçoso rosto, sob o fogo dos seus olhos, sob a fina textura das suas feições tão delicadas, com tantas linhas curvas ou retas, mas puras e perfeitamente determinadas, todas as suas comoções podem permanecer secretas: o rubor então nada revela, aumentando ainda mais cores já tão vivas; todos os focos interiores concordam tão bem com a luz desses olhos brilhantes de vida que a fugaz chama de um sofrimento aparece apenas como um encanto a mais. Por isso, nada há mais discreto do que um rosto juvenil, porque também não há nada mais imóvel. A fisionomia de uma jovem tem a serenidade, o polido, o frescor da superfície de um lago; a das mulheres só se revela aos trinta anos. Até essa idade, o pintor só lhes acha no rosto róseos e brancos sorrisos e expressões que repetem um mesmo pensamento, pensamento de mocidade e de amor, pensamento uniforme e sem profundidade; mas, na velhice, tudo na mulher fala, as paixões incrustaram-se-lhe no rosto; foi amante, esposa, mãe; as mais violentas expressões de alegria e de dor acabaram por alterar-lhe, torturar-lhe o rosto, formando aí mil rugas, tendo todas uma linguagem; e uma fronte de mulher torna-se, então, sublime pelo horror, bela pela melancolia, ou magnífica pela serenidade; se se permite desenvolver esta estranha metáfora, o lago seco deixa então ver todos os traços das torrentes que o produziram; uma fronte de mulher velha já então não pertence nem ao mundo, que, frívolo, se assusta de ver a destruição de todas as idéias de elegância a que está habituado, nem aos artistas vulgares, que nada descobrem por aí; mas, sim, aos verdadeiros poetas, àqueles que possuem o sentimento de uma beleza independente de todas as convenções sobre as quais repousam tantos preconceitos sobre a arte e a formosura.
Ainda que a senhora d’Aiglemont usasse um chapéu moderno, era fácil ver que seus cabelos haviam embranquecido, devido a comoções cruéis; mas a maneira como os usava, separados ao meio, traía seu bom-gosto, revelava seus graciosos hábitos de mulher elegante e desenhava perfeitamente sua fronte envelhecida, enrugada, na qual se encontravam ainda assim vestígios do seu antigo brilho. A forma do rosto, a regularidade das feições davam uma idéia, fraca na verdade, da beleza de que fora, por certo, orgulhosa; porém esses indícios acusavam ainda mais as dores que deviam ter sido agudíssimas, para encovar-lhe o rosto, dessecar as têmporas, reentrar as faces, macerar as pálpebras e desguarnecer de cílios o olhar grácil. Tudo era silencioso naquela mulher: o andar e os movimentos tinham esse sossego grave e recolhido que imprime o respeito. Sua modéstia, transmudada em timidez, parecia ser o resultado do hábito, que tomara havia alguns anos, de se eclipsar na presença da filha; suas palavras eram raras, suaves, como as de todas as pessoas habituadas a refletir, a concentrar-se, a viver consigo mesmas. "

José Jeremias - "Aos meus filhos."




                             
                                 
                                      

Que vôo provisório as andorinhas ensaiam

nos telhados desta casa?

O inverno se aproxima com seus ventres falantes
E elas vão ensaiando as montanhas distantes.
Vão lembrando o futuro
Exercitando as asas.

Voltarão sempre cada vez mais longe.
Até que não encontrem esta casa branca
sinalizando o nevoeiro.

A. Estebanez

                       
                  Pra mim, é um belíssimo epitáfio:


"...Hoje sou pastor de rios sentinela de colinas mirante 


das fortalezas nas ameias das neblinas...É por mim que 


à noite os ventos vêm chorar sobre as ruínas..." 




segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Affonso Romano de Sant´Anna.


Silêncio Amoroso 




Preciso do teu silêncio


cúmplice sobre minhas falhas.

Não fale.

Um sopro, a menor vogal pode me

desamparar.

E se eu abrir a boca minha alma vai rachar.


O silêncio, aprendo, pode construir. É um

modo

denso/tenso - de coexistir.


Calar, às vezes, é fina forma de amar.


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Cacaso.

REENCONTRO

Percorres a casa e observas: o corredor é longo,
quantos quartos, e eu navego teus olhos
                                              escavando
nossos corpos noturnos mapeados.
Pouco a pouco as formas endurecem e nos vemos
por fim pacificados: não sou quem pensas não és    
       quem penso,
amargos nos deixamos tão carentes
desta fome por tanto acumulada.
Chegaste agora quando a vida é escombros e nossas
                                              outras imagens
se entrelaçam mas não basta, e nossos corpos
!   se esfriam geminados.
;   Por entre lençóis e amoras por entre veios
e gomos cavamos nosso vazio e ali
                                              nos interpomos:
                                       do que não somos saudosos
sobreviventes do que fomos.




O PÁSSARO INCUBADO

O pássaro preso na gaiola
é um geógrafo quase alheio:
Prefere, do mundo que o cerca,
não as arestas: o meio.

É isso que o diferencia
dos outros pássaros: ser duro.
Habita cada momento
que existe dentro do cubo.

Ao pássaro preso se nega
a condição acabado.
Não é um pássaro que voa:
É um pássaro incubado.

Falta a ele: não espaços
nem horizontes nem casas:
Sobra-lhe uma roupa enjeitada
que lhe decepa as asas.

O pássaro preso é um pássaro
recortado em seu domínio:
Não é dono de onde mora,
nem mora onde é inquilino.

RIO, 1963.





Poesia
Eu não te escrevo
Eu te
Vivo
E viva nós!

                                   (Cacaso, Beijo na boca e outros poemas, 1985)

Arnaldo Antunes

sábado, 6 de outubro de 2012

Cidade ideal.


"Deve ter alamedas verdes
A cidade dos meus amores
E, quem dera, os moradores
 O prefeito e os varredores
Fossem somente crianças."



Estou longe da minha zona franca, eleitoral... E devo dizer que faz-me falta o combate, pois nas impenetráveis e desconhecidas zonas alheias não nos é permitido beber nem comer o que os outros partiram e partidarizaram e conosco não repartem.
Confesso que  em política, tenho sangue mui caliente,  mas no exílio voluntário que experimento, permito-me apenas pensar, e pensar baixo! - porque gente como eu, tem pensamentos falantes - e prosseguir fazendo minha pequena parte pela  Cidade Ideal "que ainda às vezes em sonhos me aparece"; cidade que não sei sequer se existe ou existirá em algum lugar; sei apenas que existe em mim, tal qual deve ter existido para Neruda que, em seu"Para Nascer Nascí", bem na última página e citando o grande poeta Rimbaud, a descreve assim:

"Um pobre e esplêndido poeta, escreveu esta profecia: "Ao amanhecer, armados de uma ardente paciência, entraremos nas esplêndidas cidades". Eu creio nesta profecia de Rimbaud... Sempre tive confiança no homem. Não Perdi jamais a esperança. Por isso talvez cheguei aqui com a minha poesia, e também com a minha bandeira. Em conclusão, devo dizer aos homens de boa vontade. aos trabalhadores, aos poetas, que todo o porvir foi expresso nessa frase de Rimbaud: só com uma ardente paciência conquistaremos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens. Assim a poesia não terá cantado em vão."

E ainda, como nos Saltimbancos de Chico Buarque, minha cidade ideal é toda feita de crianças, porque "o sonho é meu e eu sonho que..."
Bem... aprendi a custo, e hoje já sei entregar pacientemente aos próximos dias, meses e anos - a despeito de tudo, e se me couberem -, o trabalho de fazerem dentro de mim o milagre de seguir como Neruda: simplesmente crendo!
Afinal, de contas, é como fazem as crianças!
É bem melhor assim... é como é pra mim. 
E pra ti?





quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Luis Filipe Castro Mendes - Romance de Nós.


Estou à beira do mar, 
estou à beira de ti. 
Ardem no meu olhar 
os sonhos que não vi. 
Tudo em nós foi naufrágio, 
não quisemos saber: 
fizemos nosso adágio 
do que não pôde ser. 
Que resta do amor 
a quem é como nós? 
Envergonha-me pôr 
em verso: «somos sós; 
sós como amanhecer 
às avessas do mundo; 
sós como podem ser 
as areias no fundo; 
somos sós e sabê-lo 
é negar o pronome 
que de nós fez novelo 
e por nós se consome.
 

Luis Filipe Castro Mendes, in "Modos de Música"

Recado aos Amigos Distantes - Cecília Meireles.

                                               



Meus companheiros amados, 
não vos espero nem chamo: 
porque vou para outros lados. 
Mas é certo que vos amo. 

Nem sempre os que estão mais perto 
fazem melhor companhia. 
Mesmo com sol encoberto, 
todos sabem quando é dia. 

Pelo vosso campo imenso, 
vou cortando meus atalhos. 
Por vosso amor é que penso 
e me dou tantos trabalhos. 

Não condeneis, por enquanto, 
minha rebelde maneira. 
Para libertar-me tanto, 
fico vossa prisioneira. 

Por mais que longe pareça, 
ides na minha lembrança, 
ides na minha cabeça, 
valeis a minha Esperança. 



Cecília Meireles, in 'Poemas (1951)'

"Coração Ateu" de SUELI COSTA.



A canção é DELA! Uma das melhores compositoras da MPB.


Bethânia é a intéprete:

O meu coração ateu quase acreditou
Na sua mão que não passou de um leve adeus
Breve pássaro pousado em minha mão
Bateu asas e voou...

Meu coração por certo tempo passeou
Na madrugada procurando um jardim
Flor amarela, flor de uma longa espera
Logo meu coração ateu...

Se falo em mim e não em ti
É que nesse momento
Já me despedi
Meu coração ateu
Não chora e não lembra
Parte
 vai-se embora...

Eugênio de Andrade: outro dos meus portugueses amados.

Poema à MãeNo mais fundo de ti, 
eu sei que traí, mãe 

Tudo porque já não sou 
o retrato adormecido 
no fundo dos teus olhos. 

Tudo porque tu ignoras 
que há leitos onde o frio não se demora 
e noites rumorosas de águas matinais. 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo 
são duras, mãe, 
e o nosso amor é infeliz. 

Tudo porque perdi as rosas brancas 
que apertava junto ao coração 
no retrato da moldura. 

Se soubesses como ainda amo as rosas, 
talvez não enchesses as horas de pesadelos. 

Mas tu esqueceste muita coisa; 
esqueceste que as minhas pernas cresceram, 
que todo o meu corpo cresceu, 
e até o meu coração 
ficou enorme, mãe! 

Olha — queres ouvir-me? — 
às vezes ainda sou o menino 
que adormeceu nos teus olhos; 

ainda aperto contra o coração 
rosas tão brancas 
como as que tens na moldura; 

ainda oiço a tua voz: 
          Era uma vez uma princesa 
          no meio de um laranjal...
 

Mas — tu sabes — a noite é enorme, 
e todo o meu corpo cresceu. 
Eu saí da moldura, 
dei às aves os meus olhos a beber, 

Não me esqueci de nada, mãe. 
Guardo a tua voz dentro de mim. 
E deixo-te as rosas. 

Boa noite. Eu vou com as aves. 






http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/06/eugenio-de-andrade.html


"O sucesso de uma obra não é sinal da sua qualidade."


"A juventude não precisa de piedade, mas de verdade. Há muito jovem que me pede ajuda onde não há ajuda possível, pois ninguém pode viver por eles a sua própria vida, remontar às fontes do ser. Porque a poesia é a perpétua procura dessas águas."


"O silêncio é a minha maior tentação. As palavras, esse vício ocidental, estão gastas, envelhecidas, envilecidas. Fatigam, exasperam. E mentem, separam, ferem. Também apaziguam, é certo, mas é tão raro! Por cada palavra que chega até nós, ainda quente das entranhas do ser, quanta baba nos escorre em cima a fingir de música suprema! A plenitude do silêncio só os orientais a conhecem."


"A solidão não é forçosamente negativa, pelo contrário, até me parece um privilégio. Talvez a minha solidão seja excessiva, mas eu detestei sempre as coisas mundanas. Estar com as pessoas apenas para gastar as horas é-me insuportável."


"Ser poeta também é isso, essa inabilidade para o mundo do lucro e da usura."


"Sou solitário por natureza. No nosso tempo, onde a promiscuidade começa na família, apenas a solidão nos permite ser semelhante ao pássaro de S. João da Cruz: nos cimos cantar sem alvoroço, virado para onde sopra o espírito da terra."


"Nenhum poeta autêntico (e a expressão é pleonástica), pode aceitar, como regra de jogo, agradar; pelo contrário."


"Eu nem sequer gosto de escrever, Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me refugio no papel como quem se esconde para chorar. E o mais estranho é arrancar da minha angústia palavras de profunda reconciliação com a vida."