Com o auxílio luxuoso da filosofia vou tecendo e esgarçando fio a fio o que sou e penso ser... Compartilho com quem deseja o exercício, este belo texto de Schopenhauer. Quem não Ama a Solidão, não Ama a Liberdade
Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças (high life), pois, quando tentamos transformar a nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas. Assim como o nosso corpo está envolto em vestes, o nosso espírito está revestido de mentiras. Os nossos dizeres, as nossas ações, todo o nosso ser é mentiroso, e só por meio desse invólucro pode-se, por vezes, adivinhar a nossa verdadeira mentalidade, assim como pelas vestes se adivinha a figura do corpo.
Antes de mais nada, toda a sociedade exige necessariamente uma acomodação mútua e uma temperatura; por conseguinte, quanto mais numerosa, tanto mais enfadonha será. Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre.
A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.
Ademais, quanto mais elevada for a posição de uma pessoa na escala hierárquica da natureza, tanto mais solitária será, essencial e inevitavelmente. Assim, é um benefício para ela se à solidão física corresponder a intelectual. Caso contrário, a vizinhança frequente de seres heterogêneos causa um efeito incômodo e até mesmo adverso sobre ela, ao roubar-lhe seu «eu» sem nada lhe oferecer em troca. Além disso, enquanto a natureza estabeleceu entre os homens a mais ampla diversidade nos domínios moral e intelectual, a sociedade, não tomando conhecimento disso, iguala todos os seres ou, antes, coloca no lugar da diversidade as diferenças e degraus artificiais de classe e posição, com frequência diametralmente opostos à escala hierárquica da natureza.
Nesse arranjo, aqueles que a natureza situou em baixo encontram-se em ótima situação; os poucos, entretanto, que ela colocou em cima, saem em desvantagem. Como consequência, estes costumam esquivar-se da sociedade, na qual, ao tornar-se numerosa, a vulgaridade domina.
A belíssima letra do Hermínio B. de Carvalho para a Melodia do Capiba, fez desta canção uma verdadeira ode à Amizade; e ainda mais emocionante com a interpretação de Simone e ZD.
Uma riqueza!
Amigo é feito casa que se faz aos poucos
e com paciência pra durar pra sempre
Mas é preciso ter muito tijolo e terra
preparar reboco, construir tramelas
Usar a sapiência de um João-de-barro
que constrói com arte a sua residência
há que o alicerce seja muito resistente
que às chuvas e aos ventos possa então a proteger
E há que fincar muito jequitibá
e vigas de jatobá
e adubar o jardim e plantar muita flor toiceiras de resedás
não falte um caramanchão pros tempos idos lembrar
que os cabelos brancos vão surgindo
Que nem mato na roceira
que mal dá pra capinar
e há que ver os pés de manacá
cheinhos de sabiás
sabendo que os rouxinóis vão trazer arrebóis
choro de imaginar!
pra festa da cumieira não faltem os violões!
muito milho ardendo na fogueira
e quentão farto em gengibre
aquecendo os corações
A casa é amizade construída aos poucos
e que a gente quer com beira e tribeira
Com gelosia feita de matéria rara
e altas platibandas, com portão bem largo
que é pra se entrar sorrindo
nas horas incertas
sem fazer alarde, sem causar transtorno
Amigo que é amigo quando quer estar presente
faz-se quase transparente sem deixar-se perceber
Amigo é pra ficar, se chegar, se achegar,
se abraçar, se beijar, se louvar, bendizer
Amigo a gente acolhe, recolhe e agasalha
e oferece lugar pra dormir e comer
Amigo que é amigo não puxa tapete
oferece pra gente o melhor que tem e o que nem tem
quando não tem, finge que tem,
faz o que pode e o seu coração reparte que nem pão.
Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço. Além do que: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano - já me aconteceu antes.
Pois sei que - em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade - essa clareza de realidade é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.
É importante lembrar que carta é palavra. A declaração de morte coletiva surge como palavra dita. Por isso precisamos compreender, pelo menos um pouco, o que é a palavra para os Guaranis Caiovás. Em um texto muito bonito, intitulado Ñe'ẽ – a palavra alma, a antropóloga Graciela Chamorro, da Universidade Federal da Grande Dourados, nos dá algumas pistas:
“A palavra é a unidade mais densa que explica como se trama a vida para os povos chamados guarani e como eles imaginam o transcendente. As experiências da vida são experiências de palavra. Deus é palavra. (...) O nascimento, como o momento em que a palavra se senta ou provê para si um lugar no corpo da criança. A palavra circula pelo esqueleto humano. Ela é justamente o que nos mantém em pé, que nos humaniza. (...) Na cerimônia de nominação, o xamã revelará o nome da criança, marcando com isso a recepção oficial da nova palavra na comunidade. (...) As crises da vida – doenças, tristezas, inimizades etc. – são explicadas como um afastamento da pessoa de sua palavra divinizadora. Por isso, os rezadores e as rezadoras se esforçam para ‘trazer de volta’, ‘voltar a sentar’ a palavra na pessoa, devolvendo-lhe a saúde.(...) Quando a palavra não tem mais lugar ou assento, a pessoa morre e torna-se um devir, um não-ser, uma palavra-que-não-é-mais. (...) Ñe'ẽ e ayvu podem ser traduzidos tanto como ‘palavra’ como por ‘alma’, com o mesmo significado de ‘minha palavra sou eu’ ou ‘minha alma sou eu’. (...) Assim, alma e palavra podem adjetivar-se mutuamente, podendo-se falar em palavra-alma ou alma-palavra, sendo a alma não uma parte, mas a vida como um todo.”
O fio que a mão de Ariadne deixou na mão de Teseu (na outra estava a espada) para que este se aventurasse no labirinto e descobrisse o centro, o homem com cabeça de touro ou, como pretende Dante, o touro com cabeça de homem, e o matasse e pudesse, já executada a proeza, decifrar as redes de pedra e voltar para ela, para o seu amor. As coisas aconteceram assim. Teseu não podia saber que do outro lado do labirinto estava o outro labirinto, o do tempo, e que num lugar já fixado estava Medeia. O fio perdeu-se, o labirinto perdeu-se também. Agora nem sequer sabemos se nos rodeia um labirinto, um secreto cosmos ou um caos ocasional. O nosso mais belo dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos e o percamos num acto de fé, num ritmo, no sono, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade.
Cnossos, 1984.
J. L. Borgesin Os Conjurados, 1985.
T.S. Eliot
And so each venture Is a new beginning, a raid on the inarticulate, With shabby equipment always deteriorating In the general mess of imprecision of feeling, Undisciplined squads of emotion. And what there is to conquer By strength and submission, has already been discovered Once or twice, or several times, by men whom one cannot hope To emulate —but there is no competition— There is only the fight to recover what has been lost And found and lost again and again: and now, under conditions That seem unpropitious. But perhaps neither gain nor loss. For us, there is only the trying. The rest is not our business. (V)
Home is where one starts from. As we grow older The world becomes stranger, the pattern more complicated Of dead and living. Not the intense moment Isolated, with no before and after, But a lifetime burning in every moment And not the lifetime of one man only But of old stones that cannot be deciphered. (V)
Love is most nearly itself When here and now cease to matter. Old men ought to be explorers Here or there does not matter We must be still and still moving Into another intensity For a further union, a deeper communion Through the dark cold and the empty desolation, The wave cry, the wind cry, the vast waters Of the petrel and the porpoise. In my end is my beginning.
Não me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma é burocrática e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profissão; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa inteligência e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das atenções das pessoas mais sérias; creio mesmo que tal distinção foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, é sempre possível a comparação com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de mérito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre não é de modo algum um emprego e que a sua actividade se não pode aferir pelos métodos correntes; ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo; e o que importa, no seu juízo final, não é a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente há-de pesar na balança é a pedra que lançou para os alicerces do futuro.
A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama; errou o que se fez professor e desconfia dos homens, se defende deles, evita ir ao seu encontro de coração aberto, paga falta com falta e se mantém na moral da luta; esse jamais tornará melhores os seus alunos; poderão ser excelentes as palavras que profere; mas o moço que o escuta vai rindo por dentro porque só o exemplo o abala. Outros há que fazem da marcha do homem sobre a Terra uma estranha concepção; vêem-no girando perpetuamente nos batidos caminhos; e, julgando o mundo por si, não descobrem em volta mais que uma eterna condenação à maldade, à cegueira e à miséria; bem no fundo da alma nenhuma luz que os alumie e solicite; porque não acreditam em progresso nenhuma vontade de melhorar; são os que troçam daquilo a que chamam «a pedagogia moderna»; são os que se riem de certos loucos que pensam o contrário.
Ora o mestre não se fez para rir; é de facto um mestre aquele de que os outros se riem, aquele de que troçam todos os prudentes e todos os bem estabelecidos; pertence-lhe ser extravagante, defender os ideais absurdos, acreditar num futuro de generosidade e de justiça, despojar-se ele próprio de comodidades e de bens, viver incerta vida, ser junto dos irmãos homens e da irmã Natureza inteligência e piedade; a ninguém terá rancor, saberá compreender todas as cóleras e todos os desprezos, pagará o mal com o bem, num esforço obstinado para que o ódio desapareça do mundo; não verá no aluno um inimigo natural, mas o mais belo dom que lhe poderiam conceder; perante ele e os outros nenhum desejo de domínio; o mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não o interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor — eis todo o seu programa; para si mesmo, a dádiva contínua, a humildade e o amor do próximo.
ALL I REALLY NEED TO KNOW about how to live and what to do and how to be I learned in kindergarten. Wisdom was not at the top of the graduate-school mountain, but there in the sandpile at Sunday School. These are the things I learned:
Share everything.
Play fair.
Don't hit people.
Put things back where you found them.
Clean up your own mess.
Don't take things that aren't yours.
Say you're sorry when you hurt somebody.
Wash your hands before you eat.
Flush.
Warm cookies and cold milk are good for you.
Live a balanced life - learn some and think some and draw and paint and sing and dance and play and work every day some.
Take a nap every afternoon.
When you go out into the world, watch out for traffic, hold hands, and stick together.
Be aware of wonder. Remember the little seed in the styrofoam cup: The roots go down and the plant goes up and nobody really knows how or why, but we are all like that.
Goldfish and hamsters and white mice and even the little seed in the Styrofoam cup - they all die. So do we.
And then remember the Dick-and-Jane books and the first word you learned - the biggest word of all - LOOK.
Everything you need to know is in there somewhere. The Golden Rule and love and basic sanitation. Ecology and politics and equality and sane living.
Take any of those items and extrapolate it into sophisticated adult terms and apply it to your family life or your work or your government or your world and it holds true and clear and firm. Think what a better world it would be if all - the whole world - had cookies and milk about three o'clock every afternoon and then lay down with our blankies for a nap. Or if all governments had a basic policy to always put thing back where they found them and to clean up their own mess.
And it is still true, no matter how old you are - when you go out into the world, it is best to hold hands and stick together. TRADUÇÃO:
Tudo o que realmente vale a pena saber, eu aprendi no jardim de infância.
Tudo o que hoje preciso realmente saber, sobre como viver, o que fazer e como ser, eu aprendi no jardim de infância. A sabedoria não se encontrava no topo de um curso de pós-graduação, mas no montinho de areia da escola de todo dia. Estas são as coisas que aprendi lá:
1. Compartilhe tudo. 2. Jogue dentro das regras. 3. Não bata nos outros. 4. Coloque as coisas de volta onde pegou. 5. Arrume a sua bagunça. 6. Não pegue as coisas dos outros. 7. Peça desculpas quando machucar alguém. 8. Lave as mãos antes de comer e reze antes de deitar. 9. Dê descarga. 10. Biscoitos quentinhos e leite fazem bem para você. 11. Respeite o outro. 12. Leve uma vida equilibrada: aprenda um pouco, pense um pouco... e desenhe.. e pinte... e cante... e dance... e brinque... e trabalhe um pouco todos os dias. 13. Tire uma soneca às tardes. 14. Quando sair, cuidado com os carros. 15. Dê a mão e fique junto. 16. Repare nas maravilhas da vida. 17. O peixinho dourado, o hamster, o camundongo branco e até mesmo a sementinha no copinho plástico, todos morrem... nós também.
Pense como o mundo seria melhor se todos nós, no mundo todo, tivéssemos biscoitos e leite todos os dias por volta das três da tarde e pudéssemos nos deitar com um cobertorzinho para uma soneca. Ou se todos os governos tivessem como regra básica devolver as coisas ao lugar em que elas se encontravam e arrumassem a bagunça ao sair.
Estas são verdades, não importa a idade.
Ao sair para o mundo é sempre melhor darmos as mãos e ficarmos juntos.
Conheço-o agora, aos 47, na hora certa; aos trinta não o teria apreciado tanto.
Buarque e Balzac são a nossa "mais completa tradução".
"Durante
a rápida estação em que a mulher permanece em flor, os caracteres da sua beleza
servem admiravelmente bem à dissimulação à qual a sua fraqueza natural e as
leis sociais a condenam. Sob o rico colorido do seu viçoso rosto, sob o fogo
dos seus olhos, sob a fina textura das suas feições tão delicadas, com tantas
linhas curvas ou retas, mas puras e perfeitamente determinadas, todas as suas
comoções podem permanecer secretas: o rubor então nada revela, aumentando ainda
mais cores já tão vivas; todos os focos interiores concordam tão bem com a luz
desses olhos brilhantes de vida que a fugaz chama de um sofrimento aparece
apenas como um encanto a mais. Por isso, nada há mais discreto do que um rosto
juvenil, porque também não há nada mais imóvel. A fisionomia de uma jovem tem a
serenidade, o polido, o frescor da superfície de um lago; a das mulheres só se
revela aos trinta anos. Até essa idade, o pintor só lhes acha no rosto róseos e
brancos sorrisos e expressões que repetem um mesmo pensamento, pensamento de
mocidade e de amor, pensamento uniforme e sem profundidade; mas, na velhice,
tudo na mulher fala, as paixões incrustaram-se-lhe no rosto; foi amante,
esposa, mãe; as mais violentas expressões de alegria e de dor acabaram por
alterar-lhe, torturar-lhe o rosto, formando aí mil rugas, tendo todas uma
linguagem; e uma fronte de mulher torna-se, então, sublime pelo horror, bela
pela melancolia, ou magnífica pela serenidade; se se permite desenvolver esta
estranha metáfora, o lago seco deixa então ver todos os traços das torrentes
que o produziram; uma fronte de mulher velha já então não pertence nem ao
mundo, que, frívolo, se assusta de ver a destruição de todas as idéias de
elegância a que está habituado, nem aos artistas vulgares, que nada descobrem
por aí; mas, sim, aos verdadeiros poetas, àqueles que possuem o sentimento de
uma beleza independente de todas as convenções sobre as quais repousam tantos
preconceitos sobre a arte e a formosura.
Ainda que a senhora d’Aiglemont usasse um chapéu
moderno, era fácil ver que seus cabelos haviam embranquecido, devido a comoções
cruéis; mas a maneira como os usava, separados ao meio, traía seu bom-gosto,
revelava seus graciosos hábitos de mulher elegante e desenhava perfeitamente
sua fronte envelhecida, enrugada, na qual se encontravam ainda assim vestígios
do seu antigo brilho. A forma do rosto, a regularidade das feições davam uma
idéia, fraca na verdade, da beleza de que fora, por certo, orgulhosa; porém
esses indícios acusavam ainda mais as dores que deviam ter sido agudíssimas,
para encovar-lhe o rosto, dessecar as têmporas, reentrar as faces, macerar as
pálpebras e desguarnecer de cílios o olhar grácil. Tudo era silencioso naquela
mulher: o andar e os movimentos tinham esse sossego grave e recolhido que
imprime o respeito. Sua modéstia, transmudada em timidez, parecia ser o
resultado do hábito, que tomara havia alguns anos, de se eclipsar na presença
da filha; suas palavras eram raras, suaves, como as de todas as pessoas
habituadas a refletir, a concentrar-se, a viver consigo mesmas. "
Pra mim, é um belíssimo epitáfio: "...Hoje sou pastor de rios sentinela de colinas mirante das fortalezas nas ameias das neblinas...É por mim que à noite os ventos vêm chorar sobre as ruínas..."
Estou longe da minha zona franca, eleitoral... E devo dizer que faz-me falta o combate, pois nas impenetráveis e desconhecidas zonas alheias não nos é permitido beber nem comer o que os outros partiram e partidarizaram e conosco não repartem.
Confesso que em política, tenho sangue muicaliente, mas no exílio voluntário que experimento, permito-me apenas pensar, e pensar baixo! - porque gente como eu, tem pensamentos falantes - e prosseguir fazendo minha pequena parte pela Cidade Ideal "que ainda às vezes em sonhos me aparece"; cidade que não sei sequer se existe ou existirá em algum lugar; sei apenas que existe em mim, tal qual deve ter existido para Neruda que, em seu"Para Nascer Nascí", bem na última página e citando o grande poeta Rimbaud, a descreve assim:
"Um pobre e esplêndido poeta, escreveu esta profecia: "Ao amanhecer, armados de uma ardente paciência, entraremos nas esplêndidas cidades". Eu creio nesta profecia de Rimbaud... Sempre tive confiança no homem. Não Perdi jamais a esperança. Por isso talvez cheguei aqui com a minha poesia, e também com a minha bandeira. Em conclusão, devo dizer aos homens de boa vontade. aos trabalhadores, aos poetas, que todo o porvir foi expresso nessa frase de Rimbaud: só com uma ardente paciência conquistaremos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens. Assim a poesia não terá cantado em vão."
E ainda, como nos Saltimbancos de Chico Buarque, minha cidade ideal é toda feita de crianças, porque "o sonho é meu e eu sonho que..."
Bem... aprendi a custo, e hoje já sei entregar pacientemente aos próximos dias, meses e anos - a despeito de tudo, e se me couberem -, o trabalho de fazerem dentro de mim o milagre de seguir como Neruda: simplesmente crendo!
Afinal, de contas, é como fazem as crianças!
Estou à beira do mar, estou à beira de ti. Ardem no meu olhar os sonhos que não vi. Tudo em nós foi naufrágio, não quisemos saber: fizemos nosso adágio do que não pôde ser. Que resta do amor a quem é como nós? Envergonha-me pôr em verso: «somos sós; sós como amanhecer às avessas do mundo; sós como podem ser as areias no fundo; somos sós e sabê-lo é negar o pronome que de nós fez novelo e por nós se consome.
"O sucesso de uma obra não é sinal da sua qualidade." "A juventude não precisa de piedade, mas de verdade. Há muito jovem que me pede ajuda onde não há ajuda possível, pois ninguém pode viver por eles a sua própria vida, remontar às fontes do ser. Porque a poesia é a perpétua procura dessas águas." "O silêncio é a minha maior tentação. As palavras, esse vício ocidental, estão gastas, envelhecidas, envilecidas. Fatigam, exasperam. E mentem, separam, ferem. Também apaziguam, é certo, mas é tão raro! Por cada palavra que chega até nós, ainda quente das entranhas do ser, quanta baba nos escorre em cima a fingir de música suprema! A plenitude do silêncio só os orientais a conhecem." "A solidão não é forçosamente negativa, pelo contrário, até me parece um privilégio. Talvez a minha solidão seja excessiva, mas eu detestei sempre as coisas mundanas. Estar com as pessoas apenas para gastar as horas é-me insuportável." "Ser poeta também é isso, essa inabilidade para o mundo do lucro e da usura." "Sou solitário por natureza. No nosso tempo, onde a promiscuidade começa na família, apenas a solidão nos permite ser semelhante ao pássaro de S. João da Cruz: nos cimos cantar sem alvoroço, virado para onde sopra o espírito da terra." "Nenhum poeta autêntico (e a expressão é pleonástica), pode aceitar, como regra de jogo, agradar; pelo contrário." "Eu nem sequer gosto de escrever, Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me refugio no papel como quem se esconde para chorar. E o mais estranho é arrancar da minha angústia palavras de profunda reconciliação com a vida."