sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Ai, Mouraria...


Na minha infância, ainda na Ramos Ferreira, havia um programa na TV local chamado Portugal sem Passaporte, que eu adorava assistir. 
Mouraria era um fado muito conhecido na época, tendo sido gravado pela Ângela Maria, a grande voz feminina daquele tempo; tocava no referido programa e também era o fado que mamãe e papai cantavam muito em casa, e creio que já tocava também a alma melancólica que me coube...
Quem sabe não tenha sido Mouraria que fez nascer em mim essa coisa toda triste e cheia de saudade que sinto em relação a Portugal... Esse tipo de banzo...
Quem sabe...
 
Ai Mouraria
da velha Rua da Palma,
onde eu um dia
deixei presa a minha alma,
por ter passado
mesmo a meu lado
certo fadista
de cor morena,
boca pequena
e olhar trocista.

Ai Mouraria
do homem do meu encanto
que me mentia,
mas que eu adorava tanto.
Amor que o vento,
como um lamento,
levou consigo,
mais que inda agora
a toda a hora
trago comigo.

Ai Mouraria
dos rouxinóis nos beirais,
dos vestidos cor-de-rosa,
dos pregões tradicionais.
Ai Mouraria
das procissões a passar,
da Severa em voz saudosa,
da guitarra a soluçar.





Estrada Branca




Estrada branca
Lua branca
Noite alta
Tua falta caminhando
Caminhando, caminhando
Ao lado meu
Uma saudade
Uma vontade
Tão doída
De uma vida
Vida que morreu
Estrada passarada
Noite clara
Meu caminho é tão sozinho
Tão sozinho
A percorrer
Que mesmo andando
Para a frente
Olhando a lua tristemente
Quanto mais ando
Mais estou perto
De você
Se em vez de noite
Fosse dia
Se o sol brilhasse
E a poesia
Em vez de triste
Fosse alegre
De partir
Se em vez de eu ver
Só minha sombra
Nessa estrada
Eu visse ao longo
Dessa estrada
Uma outra sombra
A me seguir
Mas a verdade
É que a cidade
Ficou longe, ficou longe
Na cidade
Se deixou meu bem-querer
Eu vou sozinho sem carinho
Vou caminhando meu caminho
Vou caminhando com vontade de morrer

( Vinicius de Moraes / Antonio Carlos Jobim)

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Um NAMASTÉ pra Ágatha Albuquerque





Definições de Namasté:

  • "Eu honro o Espírito em você que também está em mim." -- atribuída a Deepak Chopra.
  • "Eu honro o local em você em que o Universo inteiro reside, eu honro o lugar em você que é de Amor, de Integridade, de Sabedoria e de Paz. Quando você está neste lugar em você, e eu estou neste lugar em mim, nós somos um."
  • "Eu saudo o Deus dentro de você."
  • "Seu espírito e meu espírito são um." -- atribuída à Lilias Folan, ensinamentos compartilhados de sua jornada à Índia.
  • "O divino em mim cumprimenta o divino em você."
  • "A Divinidade dentro de mim compreende e adora a Divinidade dentro de você."
  • "Tudo que é melhor e mais superior em mim cumprimenta/saúda tudo que é melhor e mais alto em você"
  • "O Deus que habita em mim saúda o Deus que habita em você."

Billie Holiday - Strange Fruit



 Até os anos 1930, o linchamento de negros nos EUA (principalmente no sul do país, mas não só) era algo que acontecia com certa frequência. Brancos espancavam e matavam suas vítimas e, depois, penduravam os corpos em árvores. Segundo estimativas, entre 1889 e 1940 mais de 3.800 pessoas foram linchadas nos EUA.
Foi nesse ambiente que surgiu “Strange Fruit”. “Árvores do sul produzem uma fruta estranha/ Sangue nas folhas e sangue nas raízes/ Corpos negros balançando na brisa do sul/ Frutas estranhas penduradas nos álamos”, são os primeiros versos da canção imortalizada por Billie Holiday.
Para o lendário produtor musical Ahmet Ertegun, a música “foi uma declaração de guerra. O início do movimento pelos direitos civis”.
(Fonte: iG - Coluna Playlist de Thiago Ney.)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Mais uma da Heloisa.

Marcos joga há anos os mesmos números na Mega Sena, e a Heloisa agora acompanha com ele os resultados semanais. Ontem disse pro pai que reza muito pros números dele sairem, mas acha que Deus não a está ouvindo porque com o tanto que a tia Linda reza, não sobra tempo pra atender mais ninguém. 

Essa coisa de Fé é algo que a inquieta. Vez por outra vem a mim meio espantada pra repetir que a Bia e a tia Silvia dizem que Deus não existe.
Acho que gosta de ouvir toda a explicação que faço; talvez sinta-se feliz com a escuta inclusiva que encontra em mim, ao aceitar tudo o que pra ela É!;  quem sabe queira  apossar-se sem medo do que elegeu pra si como Verdade.  
"Isso é uma questão pessoal"! Repito sempre, e à exaustão! 
E sei que ela já compreende que as verdades não são únicas! 
"NADA DO QUE É HUMANO ME É INDIFERENTE", Heloisa, foi assim que disse o filósofo, e sigo contigo, tentando aprender...

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Clarice Lispector

Meu Deus, me dê a coragem 

Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar.

domingo, 26 de agosto de 2012

Edgard Alan Poe



Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual a  deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.

Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.

João Cabral de Melo Neto

O Poema


A tinta e a lápis 
Escrevem-se todos 
Os versos do mundo. 

Que monstros existem 
Nadando no poço 
Negro e fecundo? 

Que outros deslizam 
Largando o carvão 
De seus ossos? 

Como o ser vivo 
Que é um verso, 
Um organismo 

Com sangue e sopro, 
Pode brotar 
De germes mortos? 


O papel nem sempre 
É branco como 
A primeira manhã. 

É muitas vezes 
O pardo e pobre 
Papel de embrulho; 

É de outras vezes 
De carta aérea, 
Leve de nuvem. 

Mas é no papel, 
No branco asséptico, 
Que o verso rebenta. 


Como um ser vivo 
Pode brotar 
De um chão mineral? 

(In Novas Seletas de João Cabral de Melo Neto, p. 25) 

FOR ABSENT FRIENDS - Genesis

Sunday at six when they close both the gates
a widowed pair,
still sitting there,
Wonder if they're late for church
and it's cold, so they fasten their coats
and cross the grass, they're always last.

Passing by the padlocked swings,
the roundabout still turning,
ahead they see a small girl
on her way home with a pram.

Inside the archway,
the priest greets them with a courteous nod.
He's close to God.
Looking back at days of four instead of two.
Years seem so few (four instead of two).
Heads bent in prayer
for friends not there.

Leaving twopence on the plate,
they hurry down the path and through the gate
and wait to board the bus
that ambles down the street.

Mia Couto


Destino

à ternura pouca

me vou acostumando

enquanto me adio

servente de danos e enganos



vou perdendo morada

na súbita lentidão

de um destino

que me vai sendo escasso



conheço a minha morte

seu lugar esquivo

seu acontecer disperso



agora

que mais

me poderei vencer?





Fui sabendo de mim

por aquilo que perdia



pedaços que saíram de mim

com o mistério de serem poucos

e valerem só quando os perdia



fui ficando

por umbrais

aquém do passo

que nunca ousei



eu vi

a árvore morta...





Preciso ser um outro

para ser eu mesmo



Sou grão de rocha

Sou o vento que a desgasta



Sou pólen sem inseto



Sou areia sustentando

o sexo das árvores



Existo onde me desconheço

aguardando pelo meu passado

ansiando a esperança do futuro



No mundo que combato morro

no mundo por que luto nasço


Mia Couto

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Em tempo de cousas, ainda gosto de causas.

"Aos cinco anos de idade, Joceli Borges foi retratada pela famosa câmera de Sebastião Salgado ao lado dos pais, que peregrinavam pelo interior do Paraná em busca de um lote de terra.
Aquele rosto sujo de olhar provocativo virou capa de livro e ganhou espaço na mídia, em museus e em galerias do Brasil e do exterior.
Passados 16 anos, a jovem de 21 anos continua uma trabalhadora rural sem terra."

(FOLHA DE SÃO PAULO, hoje - Via UOL)

À esquerda, foto feita por Sebastião Salgado em 1996; à direita, Joceli hoje, no acampamento Fazenda Rio Grande, do MST

Como esquecer estes olhos? 
O livro Terra, das imagens de Sebastião Salgado, reforçado pelas canções do Chico e do Milton e ainda por um belo prefácio do Saramago, esteve por anos - quem sabe ainda  esteja - sobre a mesa de centro da sala de estar da casa da minha mãe - Sempre ela! 
Lembro de tê-lo folheado uma dezena de vezes; de ter lido em lágrimas o texto do Saramago e de ter cantado e ouvido à exaustão - com o som no volume máximo - as canções do cd que acompanhava a obra. 
E como uma coisa leva à outra, a primeira que me veio à mente ao rever Joceli - esta brasileira ainda sem terra - foi a canção Levantados do Chão do Chico Buarque e Milton Nascimento; canção do cd que compõe o livro. Em seguida,  lembro do Songbook  do Buarque - é assim que a Bethânia o chama -  elaborado pelo saudoso Almir Chediak. 
Em quatro volumes, o songbook traz , além das letras e cifras das canções, muitas fotos, discografia, dados biográficos e belos textos dedicados ao digamos assim, songbucado da vez, e no do Buarque, há um texto inesquecível da Adélia Bezerra de Menezes, professora de teoria literária da USP e da Unicamp, intitulado "Chico Buarque: criador e revelador de sentidos".
E foi o texto da Adélia - especialmente no trecho em que analisa a letra de Levantados do  Chão - que se encadeou a tantas outras informações arquivadas à memória, nesta fria manhã de agosto em Itatiaia.  Através dele, revejo à luz do dia,  uma, entre tantas "velhas" questões de um passado não tão distante; questões enredadas às causas da minha juventude que permanecem vivas e válidas por não terem sido solucionadas. 
Vivas! Ainda que ao projeto de mundo atual, seja mais conveniente fazer crer serem causas mortas ou ultrapassadas. 

Trecho do texto de Adélia Bezerra de Menezes, digitalizado do Songbook do Buarque:







Texto de Adélia Bezerra de Menezes:
http://www.chicobuarque.com.br/letras/notas/n_levantad.htm









quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Mamãe, eu quero!

                                 

É fiLOVEsófico; tem um pouco de cada.

                       

A verdade é que fomos - Raúl de Carvalho

A verdade é que fomos 


feitos do mesmo sangue 

violento e humilde 



A verdade é que temos 

ambos a graça de compreender 

todos os homens e todas as estrelas 



A verdade é que Deus 

nos ensinou 

que este é o tempo da razão ardente. 



Deus hoje deu-me um pouco 

do que toda a vida lhe pedi 

foi esta calma e simples aceitação 

de que é preciso que estejas 

longe de mim 

para que amando eu possa conservar 

o meu coração puro. 



As ruas hoje pareciam mais largas 

e mais claras 



As casas e as pessoas 

pareciam diferentes 



Foi só o tempo de pedir a Deus 

que prolongasse o generoso engano. 



Tu ensinaste-me as palavras simples 

as palavras belas 

as palavras justas 



E fizeste com que eu já não saiba 

falar de outra maneira. 



O amor substitui 

o Sol — que tudo ilumina. 



Sonhar contigo é quase como 

saber que existo para além de mim. 



Se basta que de mim te lembres 

para que o sono facilmente venha 

porque não hás-de dar-me amor a paz 

com que o meu coração de há tanto tempo sonha 



Vês como é tão simples 

ter o coração 

tão perto da terra 

e os olhos nos olhos 

e a alma tão perto 

da tua alma 



Por que será 

que quanto mais repartimos 

o coração 

maior e mais nosso ele fica? 


Quando nem o FWD nem o REW funcionavam, e eu sequer imaginava que significavam REWIND e FORWARD.

                         

                                                            

                               

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Ó sino da minha aldeia ( Fernando Pessoa)



Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto,
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Não é trova nem trovinha, é trovão no coração!




Sino, coração da aldeia;
Coração, sino da gente;
um a sentir quando bate
   outro a bater quando sente.

(Antonio Correa de Oliveira)

   


terça-feira, 21 de agosto de 2012

Tem toda razão Piaget.


Hoje, na hora do almoço, Marcos estava explicando um princípio qualquer à Heloisa

e usou a palavra  capitalista.  

Ela, que está sempre pondo asas falantes nas idéias que tem, emendou:

" A vovó nasceu no interior, então ela não é capitalista!"

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

CÂNTICO NEGRO de JOSÉ RÉGIO - Um poema que cultuo.



Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...


A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe


Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...


Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...


Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.


Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...


Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

Resposta da Cristina Coppa sobre a postagem que lhe dediquei.

Querida Carmen, eu nao consigo te responder no blog ma vou te responder aqui...

"Estou arrepiada!!!! que coisa incrivel a internet com a capacidade de ver hoje as coisas do que há 30 anos. 
E a coisa mais incrível é o poder do amor e da amizade que tem sobrevivido e crescido no coração e cruza as fronteiras do tempo.
Eu ainda tenho tua fita com as melhores músicas da MPB e com todas as letras que você escreveu para mim e que eu tenho memorizado. querida Carmen, você é grande!e Agradeço por este pensamento. te amo e sempre espero que qualquer dia nos vamos re encontrar.

domingo, 19 de agosto de 2012




No te quedes inmóvil 
al borde del camino 
no congeles el júbilo 
no quieras con desgana 
no te salves ahora 
ni nunca 
no te salves 
no te llenes de calma 
no reserves del mundo 
sólo un rincón tranquilo 
no dejes caer los párpados 
pesados como juicios 
no te quedes sin labios 
no te duermas sin sueño 
no te pienses sin sangre 
no te juzgues sin tiempo 

pero si 
pese a todo 
no puedes evitarlo 
y congelas el júbilo 
y quieres con desgana 
y te salvas ahora 
y te llenas de calma 
y reservas del mundo 
sólo un rincón tranquilo 
y dejas caer los párpados 
pesados como juicios 
y te secas sin labios 
y te duermes sin sueño 
y te piensas sin sangre 
y te juzgas sin tiempo 
y te quedas inmóvil 
al borde del camino 
y te salvas 
entonces 
no te quedes conmigo.