Na minha infância, ainda na Ramos Ferreira, havia um programa na TV local chamado Portugal sem Passaporte, que eu adorava assistir.
Mouraria era um fado muito conhecido na época, tendo sido gravado pela Ângela Maria, a grande voz feminina daquele tempo; tocava no referido programa e também era o fado que mamãe e papai cantavam muito em casa, e creio que já tocava também a alma melancólica que me coube...
Quem sabe não tenha sido Mouraria que fez nascer em mim essa coisa toda triste e cheia de saudade que sinto em relação a Portugal... Esse tipo de banzo...
Quem sabe...
Ai Mouraria
da velha Rua da Palma,
onde eu um dia
deixei presa a minha alma,
por ter passado
mesmo a meu lado
certo fadista
de cor morena,
boca pequena
e olhar trocista.
Ai Mouraria
do homem do meu encanto
que me mentia,
mas que eu adorava tanto.
Amor que o vento,
como um lamento,
levou consigo,
mais que inda agora
a toda a hora
trago comigo.
Ai Mouraria
dos rouxinóis nos beirais,
dos vestidos cor-de-rosa,
dos pregões tradicionais.
Ai Mouraria
das procissões a passar,
da Severa em voz saudosa,
da guitarra a soluçar.

