domingo, 26 de agosto de 2012

Mia Couto


Destino

à ternura pouca

me vou acostumando

enquanto me adio

servente de danos e enganos



vou perdendo morada

na súbita lentidão

de um destino

que me vai sendo escasso



conheço a minha morte

seu lugar esquivo

seu acontecer disperso



agora

que mais

me poderei vencer?





Fui sabendo de mim

por aquilo que perdia



pedaços que saíram de mim

com o mistério de serem poucos

e valerem só quando os perdia



fui ficando

por umbrais

aquém do passo

que nunca ousei



eu vi

a árvore morta...





Preciso ser um outro

para ser eu mesmo



Sou grão de rocha

Sou o vento que a desgasta



Sou pólen sem inseto



Sou areia sustentando

o sexo das árvores



Existo onde me desconheço

aguardando pelo meu passado

ansiando a esperança do futuro



No mundo que combato morro

no mundo por que luto nasço


Mia Couto

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