domingo, 26 de agosto de 2012

João Cabral de Melo Neto

O Poema


A tinta e a lápis 
Escrevem-se todos 
Os versos do mundo. 

Que monstros existem 
Nadando no poço 
Negro e fecundo? 

Que outros deslizam 
Largando o carvão 
De seus ossos? 

Como o ser vivo 
Que é um verso, 
Um organismo 

Com sangue e sopro, 
Pode brotar 
De germes mortos? 


O papel nem sempre 
É branco como 
A primeira manhã. 

É muitas vezes 
O pardo e pobre 
Papel de embrulho; 

É de outras vezes 
De carta aérea, 
Leve de nuvem. 

Mas é no papel, 
No branco asséptico, 
Que o verso rebenta. 


Como um ser vivo 
Pode brotar 
De um chão mineral? 

(In Novas Seletas de João Cabral de Melo Neto, p. 25) 

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