O MEDITERRÂNEO
Miguel Souza Tavares
Não gosto de catedrais, do peso das pedras, da dimensão excessiva das naves, da mitologia de um Deus em cujo nome foram construídas e que aqui convoca e esmaga os seus crentes. Não gosto da profusão de altares de castiçais de talha dourada, de sacrários e cânticos e painéis. Não gosto da arquitetura que não é à escala humana, nem nos meios utilizados nem nos fins que representa.
Prefiro a extensão plana das mesquitas, o seu jogo de colunas e sombras, o despojamento geométrico dos seus azulejos. Prefiro mil vezes a herança do mundo árabe morto em Granada do que os símbolos da Reconquista cristã que o sepultou.
Mil vezes a leveza do mundo mediterrânico do que o sufoco das catedrais e castelos do Sacro Império Romano-Germânico. Mil vezes os templos gregos, entre resina e mar e a quietude das oliveiras, do que os castelos de Inglaterra e as florestas de bétulas do Norte. Mil vezes as kasbahs de Marrocos do que os castelos feudais da Europa, mil vezes Granada do que Versalhes.
E antes um Olimpo de Deuses de cada coisa do que um Deus único, antes o Al Andaluz do que os Reis Católicos, antes Roma do que o Papado, antes a luz e a democracia gregas do que a escuridão medieval.
Falo da nossa herança, o Mediterrâneo – a mais extraordinária civilização humana, a civilização da luz, da arte, da arquitetura, da democracia, do direito, da navegação e da descoberta, do mar e do deserto, das ilhas e dos golfos, das vinhas, dos olivais e dos pinhais, das estátuas profanas, das colunas e dos azulejos, dos pátios, dos terraços e das varandas, da cal, do branco e do azul. É a civilização do Egito, de Creta, de Atenas, de Roma, de Volubilis, de Tânger. Das cidades portuárias, de Alexandria a Lisboa e das Ilhas Gregas, da Sicília, de Malta, de Chipre, da Sardenha. São três mil anos a contemplar as estrelas do céu, a ouvir o som da água nas fontes e a tentar decifrar o mistério da morte.
Antes que a idéia de Deus esmagasse os homens, antes dos autos de fé, das perseguições religiosas da Inquisição e do fundamentalismo islâmico, o Mediterrâneo inventou a arte de viver. Os homens viviam livres dos castigos de Deus e das ameaças dos Profetas: na barca da morte até à outra vida, como acreditavam os egípcios. E os deuses eram, em vida dos homens, apenas a celebração de cada coisa: a caça, a pesca, o vinho, a agricultura, o amor. Os deuses encarnavam a festa e a alegria da vida e não o terror da morte.
Antes da queda de Granada, antes das fogueiras da Inquisição, antes dos massacres da Argélia, o Mediterrâneo ergueu uma civilização fundada na celebração da vida, na beleza de todas as coisas e na tolerância dos que sabem que, seja qual for o Deus que reclame a nossa vida morta, o resto é nosso e pertence-nos – por uma única, breve e intensa passagem. É a isso que chamamos liberdade – a grande herança do mundo do Mediterrâneo.
TAVARES, Miguel Souza. In Não te deixarei morrer, David Crockett. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
domingo, 16 de setembro de 2012
sábado, 15 de setembro de 2012
Simone Weil - Perene inspiração.
A mulher que inquietou Camus.
"A religião como fonte de consolação é um obstáculo à verdadeira fé; nesse sentido, o ateísmo é uma purificação."
" O inferno é darmo-nos conta de que não existimos e não nos conformamos com isso."
"A amizade não se busca, não se sonha, não se deseja; ela exerce-se (é uma virtude)."
" Magoar alguém é transferir para outrém a degradação que temos em nós."
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Luxo ao meu alcance.
"Dizia o neuropsicólogo russo Alexander Luria, que "para encontrar a alma, é necessário perdê-la”. O risco, entretanto, como atesta o drama do narrador deste livro, é fazer da ciência uma religião; é perder a alma para não mais encontrá-la. E se a busca da verdade científica sobre o Homo sapiens resultar na descoberta do nosso autoengano cósmico? E se a retidão cognitiva desaguar, por fim, na loucura? O que prevalece: a verdade a todo custo ou a sanidade mental?"
238 páginas que me deixaram cismada; serei eu mentalista ou fisicalista?
Luxo ao meu alcance.
200 páginas rapidinho...
Encontrei nesse livro um muito das histórias da minha mãe, que, como As três Marias da Rachel, foi aluna de colégio de freiras nos anos 50.
Luxo ao meu alcance.
85 páginas do melhor da França devoradas em uma tarde.
Sou bem feliz com o meu possível!
Che, meu caro Che, ainda espero a ternura dos fortes como tu.
Pablo Neruda, in "Nasci para Nascer"
Endureçamos a bondade, amigos. Ela também é bondosa, a cutilada que faz saltar a roedura e os bichos: também é bondosa a chama nas selvas incendiadas para que os arados bondosos fendam a terra.
Endureçamos a nossa bondade, amigos. Já não há pusilânime de olhos aguados e palavras brandas, já não há cretino de intenção subterrânea e gesto condescendente que não leve a bondade, por vós outorgada, como uma porta fechada a toda a penetração do nosso exame.
Reparai que necessitamos que se chamem bons aos de coração reto, e aos não flexíveis e submissos. Reparai que a palavra se vai tornando acolhedora das mais vis cumplicidades, e confessai que a bondade das vossas palavras foi sempre - ou quase sempre - mentirosa. Alguma vez temos de deixar de mentir, porque, no fim de contas, só de nós dependemos, e mortificamo-nos constantemente a sós com a nossa falsidade, vivendo assim encerrados em nós próprios entre as paredes da nossa astuta estupidez.
Reparai que necessitamos que se chamem bons aos de coração reto, e aos não flexíveis e submissos. Reparai que a palavra se vai tornando acolhedora das mais vis cumplicidades, e confessai que a bondade das vossas palavras foi sempre - ou quase sempre - mentirosa. Alguma vez temos de deixar de mentir, porque, no fim de contas, só de nós dependemos, e mortificamo-nos constantemente a sós com a nossa falsidade, vivendo assim encerrados em nós próprios entre as paredes da nossa astuta estupidez.
Os bons serão os que mais depressa se libertarem desta mentira pavorosa e souberem dizer a sua bondade endurecida contra todo aquele que a merecer. Bondade que se move, não com alguém, mas contra alguém. Bondade que não agride nem lambe, mas que desentranha e luta porque é a própria arma da vida.
E, assim, só se chamarão bons os de coração reto, os não flexíveis, os insubmissos, os melhores. Reinvindicarão a bondade apodrecida por tanta baixeza, serão o braço da vida e os ricos de espírito. E deles, só deles, será o reino da terra.
Panfletária
Estou relendo "Viva o povo brasileiro", um livro precioso em que João Ubaldo Ribeiro usou fatos reais mesclados à ficção para percorrer nossa história do século XVII ao XX; nossa história tão rica e injusta que foi capaz de gerar o horrendo quadro social que apenas contemplamos como quem vai ao museu ou às exposições de arte moderna.
Na convivência social diária, somos uma sociedade pervertida, corrompida, corrupta e hipócrita, que encontrou nos políticos a melhor maneira de espiar tantas e "vis cumplicidades" com o tirano - vide discurso da servidão voluntária de Etienne de la Boétie.
Em todas as esferas há gente se dando bem, se arrumando, desviando daqui e dali para um projeto de vida individualista onde o que importa é possuir pra financiar e gozar com os gadgets e as latusas...
"EU FALO DOS QUE NÃO FALAM" é um "livrinho" de poemas do grande Hans Magnus Enzensberger (obrigada, mamãe!) que tenho em mãos; adquiri-o há anos no sebo Árqueólogo, um dos meus lugares preferidos em Manaus.
Neste livro, há um poema que define cabalmente, o que penso sobre esses vendilhões do templo e das próprias almas; usuários de máscaras de benfeitores e defensores da melhoria da educação e da justiça de fachada.
Eis o poema:
Defesa dos Lobos contra os Cordeiros (Verteidigung der Wölfe gegen die Lämmer)
deve o abutre se alimentar de flores?
o que exigis do chacal?
que ele mude de pele? e do lobo? que
ele mesmo limpe os dentes?
o que não apreciais
nos coronéis e nos papas?
o que vos deixa perplexos
na tela mentirosa?
quem irá então costurar para o general
a condecoração sanguinária em sua calça? quem
irá fatiar o capão diante do agiota?
quem irá ostentar orgulhoso a cruz-de-ferro
diante da barriga que ronca? quem
irá pegar a gorjeta, a soma,
a propina? há
muitos roubados, poucos ladrões; quem
então os aplaude? quem
lhes coloca a insígnia? quem
é ávido pela mentira?
vede no espelho: covardes,
que evitam a fadiga da verdade,
avessos ao aprender, o pensar
é deixado a critério dos lobos,
a coleira é vossa jóia mais cara,
nenhuma ilusão é tão estúpida, nenhum
consolo é tão barato, qualquer chantagem
ainda é para vós branda demais.
Ó cordeiros, irmãs
o que exigis do chacal?
que ele mude de pele? e do lobo? que
ele mesmo limpe os dentes?
o que não apreciais
nos coronéis e nos papas?
o que vos deixa perplexos
na tela mentirosa?
quem irá então costurar para o general
a condecoração sanguinária em sua calça? quem
irá fatiar o capão diante do agiota?
quem irá ostentar orgulhoso a cruz-de-ferro
diante da barriga que ronca? quem
irá pegar a gorjeta, a soma,
a propina? há
muitos roubados, poucos ladrões; quem
então os aplaude? quem
lhes coloca a insígnia? quem
é ávido pela mentira?
vede no espelho: covardes,
que evitam a fadiga da verdade,
avessos ao aprender, o pensar
é deixado a critério dos lobos,
a coleira é vossa jóia mais cara,
nenhuma ilusão é tão estúpida, nenhum
consolo é tão barato, qualquer chantagem
ainda é para vós branda demais.
Ó cordeiros, irmãs
são as gralhas comparadas a vós:
cegais uns aos outros.
Fraternidade reina
entre os lobos:
eles vão em bandos.
louvados sejam os saltedores: vós,
convidativos ao estupro,
vós vos atirais sobre o leito negligente
da obediência. mentis e ainda
soltais ganidos. quereis
ser estraçalhados. vós
não mudais o mundo.
cegais uns aos outros.
Fraternidade reina
entre os lobos:
eles vão em bandos.
louvados sejam os saltedores: vós,
convidativos ao estupro,
vós vos atirais sobre o leito negligente
da obediência. mentis e ainda
soltais ganidos. quereis
ser estraçalhados. vós
não mudais o mundo.
(Vocês não mudam o mundo!!!!!!!!)
Hans Magnus Enzensberger
Hans Magnus Enzensberger
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Nós e os outros - Desafio com Paulo Medeiros
NÓS e OS OUTROS
Por sermos nós nos desatam
Lançam-nos à terra,
Aos outros,
Mundos incomunicáveis.
Sobreviventes,
A tatear pedras brutas,
Nas arestas do mundo forjamos a vida,
Fazemos morada de quatro paredes
E nelas penduramos o espelho:
“Espelho, espelho meu”
Que não alberga os outros.
Mas eis que esses outros – nossa sina e inferno -
Derrubam as portas,
Invadem a casa,
Convocam-nos pra guerra: ofício diário de conviver.
E assim seguimos,
A caminhar num chão de espelhos em pedaços...
Sobre estilhaços que nos ferem
E condenam à irremediável visão: dos outros? De nós?
Por sermos sós nos libertam...
(Carmen Lúcia Guerra - Manaus, março de 2011)
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Cantiga de acordar - Edu Lobo e Chico Buarque
Me sinto dentro de uma daquelas imagens aladas de Chagall sempre que ouço essa canção.
As vozes do Chico e Edu fazendo o contra-canto com a Zizi Possi, me dão a sensação de estar voando...
"Cantiga de Acordar" é minha preferida dos últimos tempos; emociona-me por demais.
terça-feira, 11 de setembro de 2012
"Invictus" - William E Henley com tradução de André C S Masini
Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.
Nas garras do destino e seus
estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.
Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.
Por ser estreita a senda - eu não
declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.
“Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul”.
William Ernest Henley (1849-1903)
A me envolver em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
domingo, 9 de setembro de 2012
SOPHIA DE MELLO BREYNER
Um poema que elegi e considero meu; na vida, e na morte também.
Deixo-o aqui, como homenagem ao grande Luiz Bacellar, poeta amazonense que partiu hoje; em setembro, como meu pai.
Deixo-o aqui, como homenagem ao grande Luiz Bacellar, poeta amazonense que partiu hoje; em setembro, como meu pai.
Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.
Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.
Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.
Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,
Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.
Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.
Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.
Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,
Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.
sábado, 8 de setembro de 2012
Para a Silvia Guerra
"THE BEST THINGS IN LIFE AREN`T THINGS", é a frase de uma
camiseta que preservo com imenso carinho; presente da minha
irmã Silvia.
Hoje, aproveitando o clima já um pouco quente, usei-a no passeio
que fizemos com a Heloisa.
Ao chegarmos em casa, fui ajudá-la com o banho e depois com a
secagem dos cabelos, e é comum nos abraçarmos enquanto nos
entregamos à tarefa nem sempre agradável de desembaraçar os
fios...
Ao aproximar-se de mim ,ela tentou ler a frase na camiseta mas
não conseguiu; eu, então, li e traduzi pra ela:
não conseguiu; eu, então, li e traduzi pra ela:
"As melhores coisas da vida não são coisas."
E ela, sem pensar muito, arremata:
"Eu sei!, não são objetos; é um abraço, um sentimento; é o AMOR!"
E, dizendo isso, foi me abraçando ainda mais forte...
Ficamos então ali, sem mais palavras, apenas usufruindo a
verdade da frase em nós, Silvinha!
Ficamos então ali, sem mais palavras, apenas usufruindo a
verdade da frase em nós, Silvinha!
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
António Gedeão, "Poema da Eterna Presença ", in Poemas Póstumos. - Imagem de Susan Megur: The Two Sides of Ones Self.
O que me perturba é que tudo caiba dentro de mim,
de mim, pobre de mim, que sou parte do todo.
E em mim continuaria a caber se me cortassem braços e pernas
porque eu não sou braço nem sou perna.
...
de mim, pobre de mim, que sou parte do todo.
E em mim continuaria a caber se me cortassem braços e pernas
porque eu não sou braço nem sou perna.
...
Antoine de Saint-Exupéry
Não há como substituir um velho companheiro. Nada vale o tesouro de tantas recordações comuns, de tantos momentos difíceis vividos juntos, tantas desavenças e reconciliações, tantas emoções compartilhadas. Não se reconstroem essas amizades. É inútil plantar um carvalho na esperança de poder, em breve, se abrigar sob a sua sombra.
So true!
"We live today in a bogus meritocracy.Our society proclaims itself democratic and a place where anyone can rise to fame and wealth. But social mobility has declined. Modern market democracies are webs of special connections, riven with unfairness, hidden conspiracies and family deals. The children of successful lawyers,bankers, journalist and so on tend to rise to the top of the money-making professions, apparently convinced they are there because they're worth it."
Andrew Marr, The Sunday Times, 23.10.11
Ricardo Reis, 1- 07- 916
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
Manuel António Pina in "Como se desenha uma casa"
É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo 'eu' entre nós e nós?
Sophia de Mello Bryener - in Livro Sexto, 1962 - Pintura de Chagall
Para Atravessar Contigo
o Deserto do Mundo
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento
João dos Santos em “Ensinaram-me a ler o mundo à minha volta”
A criança modela-se.
Ajuda-a a modelar-se oferecendo-lhe tudo quanto tenhas de mais autêntico dentro de ti.
Oferece-te a ti próprio como modelo.
Faz de modelo, não só com o teu corpo de Homem, mas também com o que resta da tua espontaneidade infantil para o Amor.
Homens capazes de Amor são aqueles que foram crianças ou que se reconciliaram com a criança que foram.
Ajuda-a a modelar-se oferecendo-lhe tudo quanto tenhas de mais autêntico dentro de ti.
Oferece-te a ti próprio como modelo.
Faz de modelo, não só com o teu corpo de Homem, mas também com o que resta da tua espontaneidade infantil para o Amor.
Homens capazes de Amor são aqueles que foram crianças ou que se reconciliaram com a criança que foram.
Se amas a criança que em ti existe, então podes amar as crianças.
Podes fazer um filho.
Se a rejeitaste ou se com ela és irreconciliável então só podes gostar de bonecos de pasta, autómatos de lata e bugigangas para enfeitar o teu espaço esvaziado. Compra-os na loja, não faças filhos.
Não te ocupes dos filhos dos outros.
Mas se recuperaste essa criança, se tomaste conhecimento de que uma vontade infantil de sentir, experimentar e saber, existe em ti…
Então podes estender os braços à criança que está à tua frente.
Educar é oferecer-se como modelo,
educar é respeitar o seu próprio modelo.
Educar é respeitar a criação do Homem
e do seu Universo.
Educar é respeitar a criança e a criatividade infantil.
Se podes ser infantil, podes ser Homem, podes ser Mestre.
Podes fazer um filho.
Se a rejeitaste ou se com ela és irreconciliável então só podes gostar de bonecos de pasta, autómatos de lata e bugigangas para enfeitar o teu espaço esvaziado. Compra-os na loja, não faças filhos.
Não te ocupes dos filhos dos outros.
Mas se recuperaste essa criança, se tomaste conhecimento de que uma vontade infantil de sentir, experimentar e saber, existe em ti…
Então podes estender os braços à criança que está à tua frente.
Educar é oferecer-se como modelo,
educar é respeitar o seu próprio modelo.
Educar é respeitar a criação do Homem
e do seu Universo.
Educar é respeitar a criança e a criatividade infantil.
Se podes ser infantil, podes ser Homem, podes ser Mestre.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Esta gente
Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis
Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre
Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome
E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada
Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo
Orides Fontela
Na casa
O imperecível mito
se aconchega
quente (macio) ei-lo
em nossos braços:
visitante de um tempo sacro (ou de um não tempo)
Intertextualidades
Á espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
«Que farei eu com esta espada?»
Ergueste-a, e fez-se.
(Fernando Pessoa)
Quem com os tiranos não prive
E pelo mundo viva livre,
Glória, honra e vida têm confiadas
Somente à sua própria espada.
- Grécia - Inscrição na Espada de Kontogiánnis -Tradução de José Paulo Paes
In Rosa do Mundo
Hugo Camarneiro
MENINA
Quando for grande quero ser avó
Quero ter olhos de céu às vezes
Tocar piano, falar gato e falar riso
Dançar descalça e feliz dos pés
Ser linda de palavras e cantigas
Segredo do mar e de gaivotas
Quero voar azul como um menino
Que assobia ou dorme ou voa
Quero a certeza de flores e dias
Longe como um sol vermelho
Ou países ou amor sincero
Quando eu for grande quero ser pequena
Sophia de Mello Breyner Andresen (anos 90)
Dai-me a casa vazia e simples onde a luz é preciosa. Dai-me a beleza intensa e nua do que é frugal. Quero comer devagar e gravemente como aquele que sabe o contorno carnudo e o peso grave das coisas.
Não quero possuir a terra mas ser um com ela. Não quero possuir nem dominar porque quero ser: esta é a necessidade.
Não quero possuir a terra mas ser um com ela. Não quero possuir nem dominar porque quero ser: esta é a necessidade.
Com veemência e fúria defendo a fidelidade ao estar terrestre. O mundo do ter perturba e paralisa e desvia em seus circuitos o estar, o viver, o ser. Dai-me a claridade daquilo que é exactamente o necessário. Dai-me a limpeza de que não haja lucro. Que a vida seja limpa de todo o luxo e de todo o lixo. Chegou o tempo da nova aliança com a vida.
Bernardo Soares no "Livro do desassossego"
«O mundo é de quem não sente. A condição especial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade. A qualidade principal na prática da vida é aquela qualidade que conduz à acção, isto é, a vontade. Ora há duas coisas que estorvam a acção – a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com sensibilidade. Toda a acção é, por sua natureza, a projecção d
a personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande e principal parte composto por entes humanos, segue que essa projecção da personalidade é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alheio, o estorvar, ferir e esmagar os outros, conforme o nosso modo de agir.
Para agir é, pois, preciso que não figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias. Quem simpatiza pára. O homem de acção considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte – ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passamos ou que afasta do caminho; inerte como um ente humano que, porque não lhe pôde resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois, como à pedra, ou se afastou ou se passou por cima.
O exemplo máximo do homem prático, porque reúne a extrema concentração de acção com a sua extrema importância, é a do estratégico. Toda a vida é guerra, e a batalha é, pois, a síntese da vida. Ora o estratégico é um homem que joga com as vidas como o jogador de xadrez com peças do jogo. Que seria do estratégico se pensasse que cada lance do seu jogo põe noite em mil lares e mágoa em três mil corações? (...)
Vinicius de Moraes
O ANJO DE PERNAS TORTAS
A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.
Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés – um pé-de-vento!
Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.
Garrincha, o anjo, escuta e atende: – Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um 1. É pura dança!
Jorge de Sena, Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya
MESMO QUE O TÉDIO DE UM MUNDO FELIZ VOS PERSIGA
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum semen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
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