sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Em tempo de cousas, ainda gosto de causas.

"Aos cinco anos de idade, Joceli Borges foi retratada pela famosa câmera de Sebastião Salgado ao lado dos pais, que peregrinavam pelo interior do Paraná em busca de um lote de terra.
Aquele rosto sujo de olhar provocativo virou capa de livro e ganhou espaço na mídia, em museus e em galerias do Brasil e do exterior.
Passados 16 anos, a jovem de 21 anos continua uma trabalhadora rural sem terra."

(FOLHA DE SÃO PAULO, hoje - Via UOL)

À esquerda, foto feita por Sebastião Salgado em 1996; à direita, Joceli hoje, no acampamento Fazenda Rio Grande, do MST

Como esquecer estes olhos? 
O livro Terra, das imagens de Sebastião Salgado, reforçado pelas canções do Chico e do Milton e ainda por um belo prefácio do Saramago, esteve por anos - quem sabe ainda  esteja - sobre a mesa de centro da sala de estar da casa da minha mãe - Sempre ela! 
Lembro de tê-lo folheado uma dezena de vezes; de ter lido em lágrimas o texto do Saramago e de ter cantado e ouvido à exaustão - com o som no volume máximo - as canções do cd que acompanhava a obra. 
E como uma coisa leva à outra, a primeira que me veio à mente ao rever Joceli - esta brasileira ainda sem terra - foi a canção Levantados do Chão do Chico Buarque e Milton Nascimento; canção do cd que compõe o livro. Em seguida,  lembro do Songbook  do Buarque - é assim que a Bethânia o chama -  elaborado pelo saudoso Almir Chediak. 
Em quatro volumes, o songbook traz , além das letras e cifras das canções, muitas fotos, discografia, dados biográficos e belos textos dedicados ao digamos assim, songbucado da vez, e no do Buarque, há um texto inesquecível da Adélia Bezerra de Menezes, professora de teoria literária da USP e da Unicamp, intitulado "Chico Buarque: criador e revelador de sentidos".
E foi o texto da Adélia - especialmente no trecho em que analisa a letra de Levantados do  Chão - que se encadeou a tantas outras informações arquivadas à memória, nesta fria manhã de agosto em Itatiaia.  Através dele, revejo à luz do dia,  uma, entre tantas "velhas" questões de um passado não tão distante; questões enredadas às causas da minha juventude que permanecem vivas e válidas por não terem sido solucionadas. 
Vivas! Ainda que ao projeto de mundo atual, seja mais conveniente fazer crer serem causas mortas ou ultrapassadas. 

Trecho do texto de Adélia Bezerra de Menezes, digitalizado do Songbook do Buarque:







Texto de Adélia Bezerra de Menezes:
http://www.chicobuarque.com.br/letras/notas/n_levantad.htm









Um comentário:

  1. Ei mana, que maravilha. Estava vendo ainda há pouco uma entrevista com o Rubem Alves. Parecia tu falando! Uma das coisas que ele disse foi temer aqueles que acreditam em suas ''certezas'' - e louvar os que sempre tem uma pergunta, um questionamento. Sempre foste uma questionadora e sempre me fizeste pensar, refletir acerca de sentimentos, comportamentos e causas. E voltando à entrevista, R.A. disse ser esta a verdadeira missão do professor. Portanto, NAMASTÊ, minha eterna mestra. Te amo.

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